10 de fev de 2012

ALERTAS DE PAI SETA BRANCA



ALERTAS DE PAI SETA BRANCA 




"Sim filhos! O assim chamado avanço de conhecimentos não oferece imunidade contra a morte, a velhice ou a doença. O homem cientista descobriu uma bomba nuclear que vai acelerar o processo de sua própria destruição. No entanto, filhos, a natureza maravilhosa não precisa do cientista defensor, porque nela existe o nascimento, o crescimento, a manutenção e a transformação e, porque só sabe amar quem encontra a paz em Deus Pai Todo Poderoso."
Pai Seta Branca  31/12/1980. 


"1984, Ciclo Iniciático! Data natalícia do triste naufrágio de poderosas civilizações. Santuário perfeito, onde galáxias de todo universo se comunicavam, e o homem dando vazão ao centro nervoso do seu terceiro plexo, recebeu o que era seu, e foi levado pelo seu próprio crepúsculo. Novamente as grandes metrópoles, e os homens desenvolvendo os átomos, a sua própria constituição." 
Pai Seta Branca  31/12/1980.


"Todas as coincidências, filhos, são significativas à nossa época e, simultaneamente a do homem no espaço e a psicologia porque a mente do homem foi acelerada e alterada pelas constantes experiências atômicas e correntes nucleares, sabendo nós outros o seu final. Sabemos também, filhos, que Jesus vai aumentar cautelosamente, o processo de sua volta."
Pai Seta Branca 31/12/1982. 


"Deveis saber, filhos, da nossa finalidade nesta mensagem, que trazeis dos vossos antepassados a este planeta em desenvolvimento. Assumistes o compromisso desta Era e, portanto, tereis que cumpri-lo, confirmando, em cada coração, o Espírito da Verdade, na missão designada do Terceiro Milênio."
Pai Seta Branca 31/12/1972. 


"É então que o Espírito Consolador exigirá o vosso compromisso ao socorro final. Que será o homem sem o Espírito Consolador, vendo suas grandezas e seus tesouros submergirem no alvo oceano, quando as bases frágeis das montanhas de gelo cederem e, ao se transformarem em água, liberarem os pequenos seres, que trarão a luta e só serão vencidos pelos vossos conhecimentos científicos, filhos meus!"
Pai Seta Branca 31/12/1972. 


"Que dirá o homem esclarecido quando os grandes aparelhos começarem a surgir no céu?"
Pai Seta Branca 31/12/1972. 


"Jesus Cristo não profetizou a sua morte, para não vos ver tristes até que fosse chegada a hora, naquela noite triste de ira nefanda, e, por Deus, prevaleceu o Amor. Não vim, portanto, vos trazer ainda a mensagem de morte, mas sim a tranqüilidade do Caminheiro, para o complemento desta obra."
Pai Seta Branca 31/12/1974. 


"Filhos do Amanhecer, que já atravessastes a pesada coroa de espinhos e a glória dos mártires: levantai e edificai, pois vosso planeta exigiu a volta do Jaguar. Desenvolvei as vossas mentes e rebrilhai a ciência dos Tumuchys. O mundo, de vós outros espera o jugo final."
Pai Seta Branca 31/12/1974. 


"Cuidado filhos, não vos precipiteis com os primeiros sinais no Céu, nem com as trevas que surgirão nos horizontes, nem com as águas que subirão ao vosso redor. Porque sois filhos do Sol e da Lua e, portanto, nada devereis temer. E antes que surja outra mensagem, filhos, o mundo já estará vibrando convosco."
Pai Seta Branca 31/12/1974. 


"Filhos: Há dois mil e quinhentos anos atrás, Deus já vos preparava para o socorro  final.  Não  temais  o  fim  dos tempos e nem o que dizem os profetas: Lembrai-vos somente do que disse Jesus o Caminheiro: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
Pai Seta Branca 31/12/1975. 


"Cuidado! A Fé sem a Ciência é o perigo iminente do Espírito empreendedor nesta Era atual, enigma intraduzível do homem piedoso, inseguro, que, distante da crença, é lançado às velhas estradas, destruindo sua personalidade, renunciando às conquistas e permanecendo em suas crenças, perdendo-se na busca real do caminho, e se distanciando de suas origens e de seus mundos colonizados."
Pai Seta Branca 31/12/1977. 


"Porque devotar-se a morrer se não acreditas na vida eterna? Nos mundos civilizados, do contato e do amor. É chegada a grande hora. Cairá portanto o falso preconceito da visão física. Dias virão também que não terão razão para atuar os três Cavaleiros do Apocalipse, que simbolizam a desventura, a morte e a fome."
Pai Seta Branca 31/12/1978. 


"Filhos, nesta terra brevemente vereis pássaros com faces humanas, voando nas proximidades, à vista do olhar físico, que atravessarão os leitos dos adormecidos. Sim, quando chegar a hora, vereis, do outro lado do caminho, tribos realizando cerimônias e oferecendo sacrifícios nos ricos altares, diante das imagens, também pesadas, da ostentação, da tradição e do medo. E prosseguindo mais um pouco na viagem que, sem fechar a porta do seu Templo, serão arrastados para o oceano."
Pai Seta Branca 31/12/79. 
                   
"Então, filhos Jaguares, o homem ainda verá seus grandes tesouros, suas tradições, seus velhos papiros, suas leis e escrituras religiosas, tudo filhos, levado pela água e devorado pelo fogo... numa espécie, filho, de luto e temor... é um país? Não filho, é um poder escravizado, na sua fase de libertação."
Pai Seta Branca 31/12/1979. 


"A marcha evolutiva que se apresenta e que gradativamente vai atravessando os séculos, vos chama a razão, porque, filhos, é a conquista final. O homem até então só se preocupou em construir seus quartéis sempre armando-se contra o outro, fazendo-se temível. Vivem sempre a rebater suas próprias traições, fazendo-se fortaleza, inventando armas incomparáveis, destruidoras, sempre a se gloriar da destruição do outro."
Pai Seta Branca 31/12/1981. 


"O mundo eufórico das descobertas, mentes científicas e deslumbradas sem saber o caminho a tomar, enquanto vós outros continuam abrindo as vossas sem nada temer."
Pai Seta Branca 31/12/1983. 


"Temos a vida em outra dimensão, que avança no limiar deste Terceiro Milênio. Vós, Mestres Jaguares, filhos deste Amanhecer, na faixa evolutiva que vos encontrais, Eu, o teu Pai Seta Branca, nada tenho a desejar."
Pai Seta Branca 31/12/1984.  

AOS INSTRUTORES


OS PRIMEIROS PASSOS PARA O DESENVOLVIMENTO


Vão entrando os ASPIRANTES! Aspirante é um médium que, segundo a espiritualidade, está prestes a se desenvolver. 


Vão se sentando em lugar previamente preparado. 


Após receberem a prática do 1º Mestre Tumuchy, os Instrutores, contados por falanges, os vão conduzindo e colocando a palavra em seus corações. 


O médium, em geral, tem a mediunidade na mente, e é hora de tirar os seus reflexos negativos pelos positivos, com muito cuidado, sem apavorá-los. 


Tudo é Deus, tudo é bom, desde que não se insista em andar errado. 


Dizemos que a mediunidade é um fator biológico, que se altera no plexo mil vezes, do seu infeliz condutor, daqueles a quem chamamos de grandes médiuns! Sim, esta mediunidade, alterada por qualquer desequilíbrio psíquico, começa a encharcar o fígado, o baço, enfim, se fazendo cada vez mais infeliz. 


Ser um Doutrinador... Ser um Apará... Estão na mesma situação! Não há distinção de mediunidade, porque os plexos são idênticos. Não há diferença, absolutamente, a ponto de levar longe suas manifestações. Agora, por exemplo: o Apará ficar como Doutrinador? Sim! Enquanto Doutrinador, com manifestações de um Apará, são irradiações de um médium passista e, justamente, os perigos: não recebe diretamente do Preto Velho e fica com manifestações alteradas, fato que não se passa aqui na Doutrina. As consagrações lhe modificam, seja qual for o caso. 


Quanto ao Apará insistir em ser Doutrina, tudo bem. A perda é bem menor, porque está livre de uma interferência. A interferência é proveniente do aparelho com preocupações, sem conhecimento ou vaidoso. Qualquer espírito penetra, e faz sua maldade. Vejam quantas infelicidades poderá fazer!... E de seu plexo nada poderá oferecer. Geralmente, se descrêem da Doutrina, a ponto de deixá-la. 


O Doutrinador é responsável pelo que faz o Apará. A interferência de um espírito cobrador em um Trono, como inúmeros casos que eu conheço, por displicência do Doutrinador, pode arrasar a vida de um Homem. Sim, o Doutrinador é a única testemunha de defesa. 


A mediunidade deverá ser desenvolvida somente no Templo, com os Instrutores. 


Os médiuns Aspirantes devem, em primeiro lugar, receber as explicações sobre o Desenvolvimento do seu fenômeno mediúnico. Por exemplo, como era feito antes e está sendo feito atualmente: Primeiro, o sermão ou aula de prática; depois a técnica, sob os olhos e ao alcance dos Instrutores, quando e sempre lhes explicando o fenômeno do extrasensorial, que o Apará não vai ver sua incorporação, e que tudo vem de Deus, e só de Deus. 


Filho, procure dialogar com o Aspirante, sem intrometer-se em sua vida particular, ensinando-o a respeitar a família - não o documento de casamento. Seja humano acima de tudo, pois a religião consiste em respeito moral. Respeite uma mulher. Se não houver respeito ou se desrespeitar uma ninfa, é como desrespeitar toda a guarda de Pai João, é tê-lo no seu calcanhar, o que não é bom, porque eles não nos castigam, porém nos deixam à mercê de nossos carmas! 


Certa vez uma mulher, de uns vinte anos de idade, que odiava o marido, sem poder extravasar seus sentimentos, pois ele jurou matá-la se ela o abandonasse, chegou aqui para desenvolver. Seu mestre Instrutor lhe fez uma proposta, ou avançou o sinal da Doutrina, e a mulher começou a gritar... Levantou-se o problema como fenômeno, porém, o caso era outro... E somente agora, com a Prisão, o Instrutor se libertou de sua tão grande falha. 


O médium, quando está aflorando a sua mediunidade, fica perigoso. Seja homem ou mulher. A maioria dos casais se desentendem nesta triste fase, sem observar que neste período é que mais recebem vibrações e podem, inclusive, ser atraídos para terreiros, dependendo de suas mentalidades. 


O Instrutor, o mestre que se destina, na Lei do Auxílio, a esta espécie de trabalho, realiza o mais difícil, e sua lei passa a ser Humildade, Tolerância e Amor, e tem que usar um pouco mais de Psicologia. 


O médium sempre tem razão, sob seus aspectos, e fica intolerante por isso. Os mestres Instrutores nada têm a ver com a situação dos médiuns. Porém, sim, em se tratando de um obsidiado. 


O Doutrinador está se preparando para não ter dúvidas - essa a minha insistência! Nos enfermos, pela atuação de uma projeção negativa, obsessiva, a tendência é confundir o ambiente para que não se obtenha um diagnóstico preciso para levar a vítima ao seu objetivo. Não é muito fácil distinguir a situação precisa do caso. É verdade que a razão não se afasta de Deus. 


Deus é absolutamente Fé e absolutamente Razão! Vem, então, o caso dos esquizofrênicos. A esquizofrenia é o mal mais comum em nossos dias. É um caso perigoso de ser diagnosticado, pois são supersticiosos. É difícil, porém, com carinho e força, tudo evolui. Deve ser analisada sem qualquer comentário ao alcance do paciente. Existe a esquizofrenia por uma pena passiva; a esquizofrenia ativa e a esquizofrenia hereditária - a mais perigosa, porque envolve toda a família. É um elítrio em cobrança, anulando a personalidade e se reajustando. Nobres entre nobres, espíritos de reais tiranos! E, por último, a esquizofrenia de Horus: O portador é todo diferente, é o mais complicado de todos os médiuns, criando um porte altaneiro, procurando discutir suas teses e, muitas vezes, nos deixa incapacitados de um raciocínio normal. Chegamos até a pensar que suas explicações são convincentes. É preciso, então, uma psicologia toda especial: Fazer-se humilde, fingindo gostar de seus esclarecimentos, mas, sem perder tempo, instruí-lo sobre a Doutrina, explicando-lhe a elevação cabalística e fazendo-a em seu favor. Esta eu identifico muito bem, porque Horus foi o mais pretensioso rei egípcio. 


Falamos em animismo. Para nós não existe animismo, isto é, comunicação do próprio aparelho. O aparelho, quando está fora de sintonia espiritual ou anímico, os espíritos sem luz têm mais acesso sobre ele, de maneira que o seu padrão fica obsidiado ou obsedado. O obsidiado tem a possessão, ou melhor, algum espírito perseguindo ou protegendo, chamando-o à responsabilidade. 


Vem, então, a história de um médium obsedado. É bem parecido com o esquizofrênico, de maneira que ele vai se desenvolvendo e vai melhorando. O obsedado por elítrio tem sua cura feita pela manipulação de forças mântricas desobsessivas, passes e, também, por medicamentos. Agora, vem a história do obsedado que se diz às portas da morte e, inclusive, leva os médicos a crerem e a encharcá-lo com psicotrópicos, choques, etc. A este, pouco podemos fazer. Vem o psíquico que se sente infeliz, desprezado, mal amado: Este é fácil - desenvolve, e tudo bem... 


Logo que chegamos aqui no Vale, apareceu um casal muito lindo. Ela, granfiníssima, universitária, veio desenvolver com convicções kadercistas. Estes pacientes, cujos pais já tinham feito de tudo parta ajudar, disseram para a gente: Nós não conhecemos isso, pois somos católicos. Contudo, a moça desenvolveu, fez a sua cobrança, e saiu bem melhor. Saiu porque os pais estavam envergonhados com sua filha num ambiente que diziam umbandista. Por último, ela se apaixonou por outro e deu um grande dissabor aos pais. 


Estes que eu falo acima, dificilmente continuam na Corrente. Sim, dificilmente se afirmam. 


Falando melhor no obsidiado, um espírito de Luz pode obsidiar um médium. Um Caboclo, da Falange Pena Branca, que tem as suas técnicas, pode permitir que um cobrador se infiltre no seu tutelado e levá-lo à obsessão, caso ele esteja caminhando para a sua própria destruição. Este médium, cuja obsessão foi permitida pelo seu próprio Mentor, entra sempre carregado pelos seus familiares, que o acham muito mal. A falta de religião dos seus pais o fez assim. Sua cura pode ser bem difícil, ou bem fácil, desde que ele, o portador, se conscientize. 


Ocorre, ainda, o médium epiléptico. É uma das cobranças mais sofridas, em determinadas fases da Lua. Na Lua Nova, por exemplo, o portador fica vulnerável e a passagem é segura. Não há Doutrina. Porém, as energias de suas heranças transcendentais o curam. 


Há, também, meu filho, o perigo dos videntes, que muito nos fascinam. Cuidado, porque, no médium em decadência, a deformação da mente é total. Em conseqüência, por este desequilíbrio, se apresentam projeções, vozes, etc. 


No caminho desta nova jornada, por momentos, podemos sentir o absurdo e o contraditório em nossas condições humana e social. Porém, tão logo haja uma disciplina doutrinária ao alcance deste mundo, veremos juntos o Céu e a Terra. 


Teremos que sofrer para vencer as superstições das religiões mal acabadas, religiões que perderam a confiança pela falta de doutrina, religiões que pararam no tempo e no espaço! Falamos nos fanáticos: São fáceis de curar, caso a sua família não lhe aborreça e comece a amá-lo. Estes médiuns carregam consigo enorme falange de sofredores religiosos. Não podemos comentar, abertamente, na presença de parentes ou dos enfermos psíquicos. Temos que trabalhar sem comentários na Lei do Auxílio. 


O médium em desenvolvimento se manifesta pela projeção luminosa e nunca pela projeção de espíritos sofredores, isto é, nunca pelas trevas. Somente os luminosos Iniciados podem, com seus instrumentos, fazer uma projeção em fonia e manifestar-se em um aparelho. É algo tão puro que eu tenho ordens de Jesus para dizer: Está incorporado! Posso, também, deixar de dizer ou de revelar um quadro, com medo da repercussão. As grandes questões que se apresentam às mentes e como são aplicadas ficam gravadas. 


Podemos dizer, também, que as vibrações simples ou individuais podem juntar-se em harmonia e formar, coletivamente, um círculo maior. Quanto maior o número de vibrações positivas, maior o poder de resistir à ação das forças contrárias. 


A força, seja qual for o modo de aplicar, é o poder de todas as coisas. Destaca-se que, quanto maior for o círculo das forças espirituais que rodeiam o Homem, maior será sua proteção das forças contrárias. As forças harmoniosas se atraem e as contrárias se repelem. Meu filho, a mais grandiosa tarefa que temos é a conquista silenciosa desta Doutrina, cultivando a conduta doutrinária. 


Vamos dar prosseguimento à exposição relativa aos fluídos, chegando-se sempre na sua atuação no seio da individualidade. Estamos na matéria densa e na análise de suas doutrinas tenham toda a consideração e psicologia possíveis. O narrador conta a sua história com amor para transmitir o máximo de seu encanto.


O Doutrinador não é simplesmente um Doutrinador, porque o coração do Homem é um santuário de Deus vivo. O certo é que todas as vidas individuais são centros de consciência na vida única. A sensibilidade afetiva se encontra em todas as formas de vida, pois em tudo existe a essência divina e, por conseguinte, aí proliferam o amor e a sabedoria. 


Meu filho, nossa obra chegou, agora, a um plano superior de desenvolvimento espiritual, superior aos ensinamentos elementares e às simples manifestações. 


É chegada a hora dos Grandes Iniciados. Veremos, num futuro próximo, grandes acontecimentos que se desencadearão aos nossos pés, fenômenos que vão nos ligar deste mundo a outro.


Salve Deus, meu mestre Instrutor! Tenha esta cartinha para a sua individualidade. 


(Tia Neiva, 13.9.84) 

O PRESIDIARIO CONSELHEIRO


O PRESIDIÁRIO

CONSELHEIRO



TIA NEIVA (18-12-81)


Certa vez, ouvi uma voz que chamava por meu nome. Ao me voltar, deparei-me com um senhor de mais ou menos 45 anos de idade, com uma aparência de espírito evoluído, que me disse:

- Tia Neiva! Eu quero lhe contar a minha história, para que sirva de exemplo aos espíritos que têm como lema a violência, acreditando que somente a vingança lava seus corações.

         Acercando-se de mim, continuou:

- Era um daqueles muitos domingos que passamos na Terra, eu e minha esposa. Eu era muito amigo de meus sogros e convivíamos juntos, muito bem. Um de nossos vizinhos era muito chegado a nós, embora não tivesse uma reputação muito boa naquela cidade. E, naquele domingo fatídico, quando alegremente almoçávamos, todos reunidos, dois homens invadiram violentamente minha casa e seguraram-me pelos braços, como se todo o ódio do mundo os dominasse. E, sem saber do que se tratava, me senti ultrajado, e reagi com toda a brutalidade, tentando me defender daqueles desconhecidos. Cego pela raiva, quando dei conta de mim um dos agressores tinha fugido e o outro estava caído, morto por mim. Também jazia morto o meu vizinho José, abatido por aquele invasor que fugira. Meu sogro mandou que eu corresse para fugir ao flagrante, enquanto ele chamava a polícia. Eu era muito ingênuo para defender-me, e decidi ficar esperando pela polícia, na certeza de que tudo seria esclarecido. Não conhecia nenhum dos agressores, e não entendia aquilo. As únicas testemunhas da minha inocência, de que eu agira para me defender e proteger minha família, eram meus sogros e minha esposa.

         Como eu tinha o hábito de beber, ninguém teve a coragem de testemunhar em meu favor. Também, como eu, ninguém sabia o que levara aqueles homens a invadirem meu lar, com tanta violência, e me atacarem com tanto ódio. Nas ruas, o comentário era o de que matara o pai de uma moça que eu havia desonrado. Por isso, aquele ódio todo. Só que, na realidade, estavam me imputando a culpa de um crime que eu não cometera e sim... o meu vizinho! Um terrível engano!...

         Ó, Tia Neiva! Deves imaginar o que sofri. Preso, sem amparo, e a família da vítima pensando somente em vingança, passando a me perseguir. Um dia, um irmão daquele homem que morrera por minhas mãos – que eu reconheci como um dos que haviam me atacado e fora o assassino de José – foi ser carcereiro no presídio em que eu estava, e passou a fazer comigo os maiores absurdos. Cansado de tanta barbaridade, certo dia fui chamado para depor junto àquele delegado que me prendera, e me decidi por pedir a ele que me livrasse daquele horror que vinha passando. Para minha surpresa, ele se mostrou muito receptivo, e me disse com convicção:

- Se tu me ajudares, eu te ajudarei. Desonrastes a filha de Acácio e, quando ele te foi cobrar, tu o matastes. Porém, ainda não ficou esclarecido quem matou José, o teu vizinho. Fostes tu? Dizes-me... Bem poderias me dizer toda a verdade!

         - Vou contar – comecei eu, mas vi, naquele instante, o meu carcereiro que entrava e me olhava com ódio. Sim, aquele era o assassino de José! Então, lembrei-me dos pais da moça que eu nem conhecia. Lembrei-me da minha pequena Nice, que eu deixara com apenas 3 anos de idade... Minha cabeça parecia girar, mergulhada em pensamentos estranhos.

         Tia Neiva! Olhando no rosto daquele guarda que tanto mal me fazia, maltratando-me e me espancando, fixei meus olhos nos seus olhos, que pareciam fulgir de tanto ódio, e falei firme para o delegado:

- Sim, doutor, fui eu quem matou aqueles dois homens. Porém, acredite, não conheço a moça e tampouco sabia a razão daquele ataque. – E continuei relatando tudo o que se passara e o que eu sabia.

         Enquanto eu fazia o relato, assumindo toda a culpa pelas duas mortes, pude ver que o ódio de meu carcereiro se abrandava. E o delegado acreditou em tudo que falei. Eu tremia de medo, pois agora aquele homem sabia que eu o havia reconhecido. Pensei que, já que assumira toda a culpa, ele poderia piorar o tratamento que me dispensava, vingando-se da morte do irmão e da desgraça da sobrinha. O delegado, que tinha estado a nos observar, perguntou:

- Tens alguma coisa contra ele?

         - Não, senhor delegado, nem o conheço.

         - Ele é irmão de tua vítima – afirmou o delegado.

         - Meus Deus! – gritei – Agora entendo tudo melhor!...

         Saí dali pensando no que havia feito. Não dissera ao delegado que fora o guarda o autor do crime. Não entendia bem porque me acovardara, mas achei que tinha sido melhor assim. Certo dia, fui novamente chamado à presença do delegado. Notei a presença, em seu gabinete, de uma jovem loura, que pensei fosse sua filha. Ele me disse que eu já tinha direito a uma folga e poderia sair, e ficou conversando mais algumas coisas comigo. Por fim, perguntou à mocinha se ela me conhecia. Ela respondeu, sorrindo com naturalidade, que nunca me vira. E eu também disse que não a conhecia. O delegado ficou pensativo e me mandou sair. Sair... Para onde? O desastre daquela situação havia sido completo: eu, preso; minha esposa, que não acreditara em meus protestos de inocência, fora embora, com toda a família, para outro estado, e eu nem sequer sabia seu endereço. Mesmo que soubesse, como iria encará-los, se não acreditavam em mim? O desespero tomou conta de mim, e sentei-me, chorando convulsivamente. Depois de algum tempo, consegui me acalmar, mas sentia que a revolta estava tomando conta de todo o meu ser.

         Já se haviam passado dois longos anos. Quanta coisa tinha acontecido... Neste período, somente o meu sogro apareceu, poucas vezes, mas permanecia calado, sem forças para me falar. A sua visita até me fazia mal, pois eu sabia que ele escondia de mim seus sentimentos. Ele também não acreditava em mim! Condenava-me e sentia revolta pelas faltas que acreditava ter eu cometido. E isso tudo produzia uma grande revolta em mim. Quando ele ia embora, deixava-me mergulhado no desespero. Ó, meu Deus! Um momento, um simples momento de ira causara a destruição de duas famílias!...

         Numa noite, após um dia em que recebera a visita de meu sogro, só consegui dormir depois de muitas horas lutando contra a revolta que teimava em me dominar. Dormi profundamente e sonhei... Sonhei que era um grande senhor de engenho e José – o meu vizinho – era um irmão muito querido, que assumia a responsabilidade por todas as loucuras que eu cometia. Mais do que um irmão, era um amigo que eu tinha. Nicácio – a minha vítima – e seu irmão – meu carcereiro – eram nossos vizinhos, mas nós os maltratamos muito. Eles eram honestos e muito mais trabalhadores do que nós. Como resultado disso, suas propriedades eram bem maiores do que as nossas, e melhores. Mas eles eram perversos com os escravos, que vivam tristes em razão dos maus tratos que recebiam. Ainda sonhando, caminhava pelos campos quando encontrei uma linda moça – aquela jovem que eu vira na delegacia – e nos falamos. Era filha de Nicácio, e sentimos uma forte atração um pelo outro. Estávamos apaixonados e, embora contra a vontade de Nicácio, acabamos nos casando e tomei todas as propriedades de meu sogro. Para isso, após algumas desavenças, havia matado o irmão de Nicácio – meu carcereiro – e, com tantos infortúnios e contrariedades, Nicácio ficara louco. Assim, assumi toda aquela fortuna. Para atenuar meus crimes, a única coisa que fazia era tratar bem daquela família. E meu sonho continuou, Tia, até a data atual, recaindo tudo sobre a minha pessoa. Acordei e senti alívio. Não sabia nada sobre o que continha de real aquele sonho. E, quando vi meu sogro,  novamente vieram à minha mente aqueles personagens do sonho: ele era um homem cheio de maldade, forte, e me induzia a cometer muitas maldades. Agora, ali à minha frente, com aquele ar compungido... Comecei a pensar no que o sonho me mostrara e passei a entender melhor o que me acontecera. Certamente, se tudo aquilo era verdade, se no passado havíamos cometido tantos crimes, era natural que, pela Lei de Causa e Efeito, aquelas nossas vítimas houvessem voltado e fizessem suas cobranças. Essa idéia foi fazendo uma modificação em mim. Deixei de ser aquele homem revoltado, triste, e passei a me relacionar melhor com os outros. Já sorria, era receptivo a confidências e fazia amigos. Enfim, um raio de sol iluminou aquele mundo em que eu estava perdido na minha dor.

         Tia Neiva, o Homem não pode se queixar de Deus. Onde quer que ele vá, ali encontrará honestidade e tudo quanto precisa para as suas afirmações. Não sentia mais saudades. Em cada presidiário eu via um senhor de engenho, tal foi minha afirmação. Um dia, senti forte dor de cabeça e fui levado para um pequeno ambulatório. A dor era intensa, e me desinteressei de tudo. A medicação que me deram para aplacar a dor fez com que eu caísse em profundo sono. Então, comecei a sonhar... Ó, meu Deus! Vi alguns homens, que me pareceram sacerdotes, vestindo trajes brancos, operando minha cabeça. Realmente, depois que acordei, a dor tinha passado e nunca mais voltou.

         Certa vez, estava eu no grande pátio do presídio quando notei um jovem, com mais ou menos 30 anos de idade. Ele havia matado seu próprio pai e, diante disso, senti, como todo mundo sente, repulsa pelo rapaz. Mas, alguma coisa dentro de mim venceu aquele julgamento, e me acerquei dele, perguntando:

         - Como você está?

         - Como poderia estar? – Ele começou a chorar e, entre soluços, continuou – Você sabe que eu sou um assassino? Matei meu próprio pai!...

         Respondi, com firmeza, que eu não acreditava e que seu caso deveria ser mais ou menos parecido com o meu. Ele não quis saber como fora o meu caso e continuou sua narração:

         - Ele viva bêbado e batia muito em minha mãe. Um dia, no auge da violência, estava a ponto de matá-la, quando interferi. Ele se voltou contra mim, dizendo que me odiava e, da mesma forma que matara meu pai, ia me matar. Eu me surpreendi, pois sempre o considerara como pai. Pensei que era fruto do seu estado de embriaguez e, enquanto ele, trôpego, tentava me alcançar, perguntei a minha mãe se era verdade. Ela confirmou. Havia dito a ele há trinta dias, pensando que ele a abandonaria. Naquele instante de desespero passou em minha mente toda a minha triste infância, toda a nossa miséria. Minha mãe, de cabeça baixa, deixara-se cair em um canto. Foi quando, com todo o ímpeto de um ódio profundo, aquele homem se lançou sobre mim. Sem pensar, num acesso de violência, defendi-me e lhe apliquei um golpe que foi fatal. – Abaixando a cabeça, deu um soluço desesperado e concluiu: - Apesar de tudo eu não tinha coragem de matá-lo! Porém, aquilo aconteceu e sei que ninguém vai acreditar em mim...

         Fiquei pensando que as coisas aconteceram com ele tal como haviam acontecido comigo. Senti um desânimo, mas me compadeci daquele companheiro de infortúnio e lhe disse algumas palavras de consolo. Tornamo-nos amigos pela dor. E assim como ele, muitos se chegaram a mim, sempre carregados de ódio, de revolta, mas sempre recebiam minhas palavras para aplacar o desespero que sentiam. Nossa vida, ali, não tinha muitas novidades, a não ser a malvadeza de umas pessoas com outras. As suas dores, as suas paixões, sempre me encontravam disposto a dar um pouco de conforto àquelas pessoas, graças a Deus!

         Certa noite tive um sonho com uma casa azul, uma casa muito azul, cuja vida de seu dono era um mistério. Era riquíssimo e recebia visitas que aparentavam alto nível social, dizendo-se estrangeiros, de diversas partes do mundo. Um verdadeiro enigma. Meu sonho continuou, e me senti penetrando naquela imensa e misteriosa casa, com a sensação de que era guiado por alguém que me falava:

         - Procure agir depressa, enquanto você dispõe de tempo! Viu como é perigosa uma cabeça cheia de sonhos? Lembra-se quando este homem o convidou para trabalhar com ele?

         - Sim, – pensei - poderia estar bem melhor.

         - Como ninguém fugirá às surpresas da noite com as mãos desocupadas, ajude o próximo enquanto permanecem ao seu lado as oportunidades, dentro de suas possibilidades.

         - Eu ajudar este homem? Quem sou eu? E como?

         Ao acordar lembrei-me de que não soubera que espécie de trabalho ele iria me dar. Ainda deitado, lembrava com toda a clareza daquele sonho – “Procure agir depressa enquanto você dispõe de tempo...”  Ó, meu Deus! Sonhos, somente sonhos... Aquela voz voltou em outro sonho:

         - E, também, só damos lições de vida, enquanto o livro das provas repousa em nossas mãos! Aprender é fácil, é uma bênção. O que não é fácil é saber emitir o ensinamento como uma bênção. Acerte as contas com os seus vizinhos enquanto a hora lhe é favorável. Amanhã, em todos os quadros podem surgir transformações. A mente do Homem é imprevisível. Dê suas lições sensatamente, reconforte os desesperados...

         Sonhos... Tudo sonhos, pensava eu, sem sair da cama.

         O delegado sempre vinha conversar comigo. Nós nos afinávamos bem e eu tinha muito respeito por ele. Com carinho, ele me contava muitas coisas, boas ou ruins. Um dia, ele me disse:

         - O homem da casa azul foi detido. Ele era um contrabandista e continuaria seus crimes se não tivesse matado seu cúmplice.

         - Meu Deus! – gritei, assustando o delegado.

         Então comecei a contar-lhe, desde o princípio, sobre os meus sonhos, sem saber qual seria sua reação. E qual não foi o meu espanto quando ele me disse, todo esperançoso, que eu era um grande médium e me convidou para participar de uma sessão espírita.

         - Sim, - pensei – é uma saída!...

         No dia combinado, como ele havia determinado, fomos ao centro espírita. Era um grande terreiro e, no salão, a mãe de santo veio ao nosso encontro, dirigindo-se ao delegado. Ficaram um pouco distante de mim, conversando baixinho. Por fim, me chamaram e me conduziram até um homem que estava sentado em um toquinho. Estava incorporado, pelo que pude ver, e tão logo me sentei à sua frente, ouvi ele me falar. Sim, foi com muita surpresa que ouvi aquela voz, a mesma voz que me falava em meus sonhos, me dizendo:

         - Nada tens a fazer aqui. Fique naquele canto e espere até que o delegado vá embora.

         - Sim! – respondi depressa, no meu espanto.

         O delegado me perguntou se estava tudo bem e respondi que sim. Iria ficar apenas vendo como funcionavam os trabalhos. E assim fiz. Como era a primeira vez que estava num lugar daqueles, muito apreciava tudo, achando bonito e complexo o que via. O delegado foi falar com aquela entidade que havia falado comigo, e vi que ficava muito emocionado ao ouvir o que aquele homem incorporado dizia. Naquele momento não podia ouvir nada. Só muito mais tarde, depois de passados muitos anos, é que ele me revelou que aquela voz lhe dissera que eu era filho espiritual dele e que teria, como missão, me ajudar na dolorosa faixa cármica que eu estava atravessando, porém sem que eu soubesse a verdade! Por isso se explicava a grande afinidade que sentíamos, desde o primeiro instante em que nos encontramos em tão triste momento. Quando voltamos, o delegado, demonstrando grande emoção e já confiando em mim, não me acompanhou até a portaria do presídio. Para minha surpresa, havia sido mudada a guarda da noite e os que ali estavam não me reconheceram e acharam que eu estava mentindo quando lhes disse que havia saído com ordem do delegado, em companhia dele. De nada adiantou. Maltrataram-me e me colocaram numa cela solitária, incomunicável. Tinha esperança de que, quando chegasse o pessoal de dia, o caso fosse esclarecido. Mas, então, vi que aquele carcereiro – minha vítima do passado – não apagara seu ódio por mim. Ele nada disse sobre a minha situação e, assim, passei vinte e quatro horas naquela solitária, incomunicável, sem ter quem me ajudasse. O que valeu foi o delegado ter ido à minha procura e descobrir toda a trama. Ele ficou furioso, pois sentiu que aqueles guardas, apesar de me conhecerem, tinham um inexplicável ódio por mim. Tinham prazer em me aplicar castigos e sofrimentos. Repreendeu severamente aqueles homens e me mandou para a enfermaria, a fim de me tratar de alguns ferimentos. Cheguei ao ambulatório e me deitei para descansar um pouco, após ter sido atendido pelo enfermeiro. Estava cansado e não sentia ódio pelos meus algozes, mas sim descrença, uma profunda descrença de tudo, abalando até a confiança que sentia em mim mesmo. E foi nesse estado de espírito que me desprendi do meu corpo para receber mais alguns importantes ensinamentos.  A partir desse dia, tudo mudou para mim. Passaram a me respeitar mais, e olhava aqueles meus carcereiros – homens, pobres homens que só tinham ódio e maldade em seus corações – com compaixão.

         Certo dia, estava sentado, envolvido por meus pensamentos, contemplando minha situação – matara um homem e pagava por dois crimes – quando senti uma aproximação. Pelos arrepios de meu plexo, senti que não era de boa natureza. E, realmente, aproximou-se o irmão de minha vítima, meu carcereiro, que me disse baixinho:

         - Você sabe que hoje completam 15 anos do seu bárbaro crime?

         Minha cabeça rodou e tive, pela primeira vez, a sensação de que eu era realmente um assassino. Tremi diante daquela acusação e pedi forças a Deus para que perdesse o medo e pudesse enfrentar aquele meu cobrador. E fui ouvido, pois falei com firmeza àquele homem que tantas torturas me fizera sofrer:

         - Como se atreve a me dizer estas coisas se você sabe tão bem quanto eu toda a verdade? – falei e sentia como se o espírito de José estivesse falando por mim – Como pode ser tão cruel, tão vingativo, quando sabe a verdade sobre mim? Sua sobrinha deve ter contado a você que eu nunca a vira e você, com suas próprias mãos, vingou-a do homem que a desonrara. E eu paguei pela responsabilidade de mais um crime para que você ficasse em liberdade, já que eu não poderia devolver a vida de seu irmão. Não tenho ódio em meu coração, e só acho que eu deveria ser inocentado do crime de ter seduzido aquela pequena jovem. Meu Deus! Fui difamado sem sequer tê-la conhecido... A minha esposa não acreditou em mim e sumiu, carregando minha filhinha Nice, com apenas três anos de idade. Até hoje, não sei nada delas, e você vem me dizer que estou há quinze anos neste cárcere!... Sim, depois que meu sogro morreu, não tive mais qualquer notícia delas... Há quanto tempo? Nem sei mais! Você me inutilizou, me torturou. Pago pelo seu crime e tenho que ouvir suas calúnias. Tenho um rim deslocado, que me maltrata, pelas pancadas desferidas por seus punhos covardes. Ma, agora, basta! Até hoje, foram os seus dias. De agora em diante, serão os meus dias!

         Avancei sobre ele que, apavorado por ver minha reação, soprou o apito e tentava sacar a arma quando o agarrei e quebrei seu braço, derrubando-o com um golpe que o fez gemer de dor. Foi um grande tumulto e outros presos acorreram, vindo a guarda em pé de guerra, com medo que se alastrasse uma rebelião no presídio. Subi para um degrau e, ali no alto, comecei a falar. E parece que chegara a minha hora, pois Deus, mais cedo ou mais tarde, toma o partido da inocência oprimida, e todos pararam para me ouvir. Eu falei para o meu carcereiro que, gemendo, estava ali parado, amparado por outros sentinelas, e disse, como se estivesse manifestado pelo Espírito da Verdade:

         - Sofri! Sofri suas injúrias, realmente, nestes quinze anos de tolerância e de dor. Há quinze anos você me massacra nesta cela e esqueceu de que eu o reconheci desde o primeiro momento em que o vi. Porém, não queria que sofresse e, para tentar compensar a morte de seu irmão em minhas mãos, assumi sua culpa. Você também sabia que nem sequer conhecia sua sobrinha. E, enquanto eu me defendia do ataque de seu irmão, naquele domingo fatídico, você matou o meu vizinho José, o verdadeiro sedutor de sua sobrinha. E eu estou pagando pelos dois assassinatos e pela sedução da jovem. Tenho sofrido muito, mas não o denunciei até este momento. Nunca quis lhe fazer qualquer mal, embora você deva ter consciência do seu procedimento e o do seu irmão naquela triste tarde, na minha casa!...

         Ele não esboçava qualquer reação enquanto eu falava. De cabeça baixa, ele estava sob o jugo da verdade! Todos ouviam atentamente minhas palavras. Fui interrompido pela chegada do delegado, que foi pedindo calma e me disse:

         - Tenha calma, João, que sei tudo a seu respeito!

         E voltando-se para o meu carcereiro, que não conseguia manter-se firme, falou com aspereza:

         - Quem deveria estar nesta cela era você! E ainda tem a coragem de zombar deste homem! Sim, somos todos filhos de Deus e não serei eu quem irá condenar sua conduta. Sei que cobra insensatamente, perdido no ódio, desse pobre homem que, em vidas passadas, foi seu algoz. Porém, tudo tem o seu preço e o seu fim. A vida não é, simplesmente, uma cobrança.  Somos filhos de Deus, somos irmãos, e a finalidade da cobrança é a escalada para um mundo superior, é para nos unirmos em uma única família universal, sem peso na consciência. Quando você tiver a felicidade de conhecer os santos desígnios de Deus, aprenderá a ter amor ao próximo, como Jesus Cristo nos ensinou no Santo Evangelho. Fique sabendo que na cobrança sem amor as dores são repartidas! Todos somos imperfeitos. Como pode um homem se atrever a cobrar, com torturas, seu irmão, por um crime pelo qual foi ele próprio o único culpado? Sempre soube da sua vida, mas não quis interferir, para ver até onde ia sua inconsciência. Sempre fui de opinião que você não merecia estar aqui. Deus, o Grande Deus, nos admite nestes presídios para que o Homem pare e pense no que ele passa aqui. E é o que muitos fazem, lá fora, aos inocentes. Pessoas que pisam em seus próprios cadáveres!...

         Quando percebi, Tia, todos estavam reunidos, ouvindo as palavras do delegado. Comecei a falar:

         - Não quero afligir meus irmãos com detalhes de minhas torturas e, sim, lhes dizer que tudo tem o seu santo dia! Nem um só filho de Deus está perdido ou esquecido e só assim podemos compreender Sua bondade infinita. Sim, cada um de vocês, um dia, compreenderá. Chorei muito em minha cela! Chorei, desesperado, pensando estar esquecido até mesmo por Deus... Quantas noites me acordava sob o efeito de terrível pesadelo e, ao abrir os olhos, me deparava com você – e apontei para o abatido carcereiro – à beira da minha cama, com atitude de quem ia me matar. E eu? Eu nunca pedi que não o fizesse. Isso e muitas outras torturas que não direi agora, pois são por demais tristes para serem cometidas por um ser humano! São muitos os homens que se utilizam da calúnia para esconder seus crimes. Fingem e mentem tanto que chegam ao ponto de acreditar no que criaram suas próprias mentes sujas.

         Fui interrompido pelo apito que nos chamava para a refeição, e aquilo quebrou nossa concentração. Todos se movimentaram, e os guardas foram levando o meu carcereiro para o ambulatório. Sentei-me ali mesmo e, novamente só, senti uma sensação de alívio, como que se um peso tivesse sido tirado do fundo de minha alma, e chorei. Chorei copiosamente. O delegado mandou me chamar e, quando cheguei, ele me recebeu com muita alegria, me abraçando e dizendo:

         - João, cumpristes dignamente tua pena e a tua missão. Parabéns! Agora, és um homem livre!

         A notícia me deixou meio tonto. Muitos presidiários e guardas vieram para se despedir de mim. Em meio a tantos abraços, só sentia aquele atordoamento e assim, sem saber exatamente quais meus sentimentos, saí daquela penitenciária, onde passara aqueles quinze anos que me pareciam uma eternidade. O delegado foi comigo até a rua e me abraçou, comovido, desejando-me boa sorte. Quando ele me deixou, fui até um banco que havia ali, próximo ao portão, e me sentei, tentando por minha cabeça em ordem.

         - Para onde irei? – pensava – Como poderei viver, trabalhar, se poucos são os que confiam num ex-presidiário? Onde posso encontrar minha Nice, minha filhinha querida? Será que ela sabe da minha existência? Agora, com dezoito anos, será que ainda lembra de mim? Irá acreditar em mim?

         Era uma avalanche de pensamentos que me deixava fora da realidade. Comecei, então, a falar em voz alta:

         - Ó, meu Deus! Sei que fui assassino pela honra do meu lar, porém jamais desrespeitei alguém, principalmente uma mocinha!...

         Nem senti quando o delegado, que se chamava Wagner, se sentou ao meu lado. Só ouvi sua voz amiga, que rompeu minha sintonia, dizendo:

         - Calma, João! Calma e esperança! Deus saberá te recompensar. Com certeza, está reservando um grande bem para ti...

         - É, doutor! Mas que será de mim agora? Sem lar, sem família, sem ninguém!...

         - De onde tu vieste, filho?

         - É uma longa história, doutor, e pode acreditar no que lhe vou contar. Eu nasci e vivi na roça, numa família unida, cuja vida era o celeiro e a lavoura. Trabalhávamos muito, mas tudo era feito na maior harmonia e todos, ali nas redondezas, eram amigos. Vivíamos na mais linda harmonia, sim! Havia muitas festas, mutirões, e formávamos um belo grupo. Certo dia, fomos para uma grande quermesse, numa festa realizada em homenagem à santa padroeira do lugar. Esses acontecimentos eram sempre marcados pela alegria e todos compareciam. Fomos para aproveitar a festa e levei minha noiva, Dorinha, um amor de mocinha, filha de um vizinho nosso. Logo que chegamos já fomos comprando bilhetes da rifa, cujo prêmio maior era um lindo cavalo, e, depois, fomos vendo as atrações da quermesse. Acercou-se de nós uma cigana, que era membro de um grupo que há alguns dias havia acampado por ali. Pediu minha mão para ler, mas eu não queria perder tempo com essas coisas, que achava tolices. Disse-lhe que não tinha dinheiro, mas ela pegou minha mão e disse apenas:  “Vais viajar para muito longe e jamais voltarás!” Dorinha ficou triste, e começou a chorar. Aborrecido, falei com ela que a cigana tinha dito tudo aquilo só porque eu não deixara ela ler minha sorte. Ficara com raiva e tratou de criar um problema. Na verdade, só Deus sabe de nossa vida. Aquela cigana nada sabia sobre o futuro dos outros. Fomos interrompidos pelo resultado da rifa. Em meio a gritos e risadas, foram nos avisar de que o meu número havia sido sorteado e que eu devia ir buscar o belo animal. Entre palmas, saí dali montado no lindo cavalo manga larga, levando Dorinha na garupa. Já estávamos esquecidos dos maus presságios da cigana... Demos uma volta e apeei, para melhor examinar o cavalo que havia ganho. Com surpresa, senti-me angustiado quando olhei seus cascos e verifiquei sinais de uma doença – frieira maldita – que começava a aparecer. Estávamos acostumados com animais, pois tínhamos grandes tropas, criações de gado de várias raças, e sabia muito da vida da maioria deles. E sabia que aquele mal não tinha cura e que meu cavalo teria que ser sacrificado. Sem saber o que fazer, guardei segredo, para ver como resolveria a situação sem que os outros soubessem. Nem mesmo a Dorinha contei, mas ela notou que algo me perturbava. Disse-lhe que estava aborrecido com a cigana que a fizera chorar e não contei o motivo da minha mágoa. Chegamos em casa e meu pai e meus irmãos estavam me esperando, fazendo enorme algazarra pelo meu prêmio. Um irmão disse que era preciso examinar o cavalo, pois poderia ter alguma doença e iria contaminar os outros. Respondi-lhe que já vira o animal todo e ele estava muito bem. Tínhamos sempre sido leais uns com os outros. A mentira, a inveja, nenhum desses sentimentos negativos achava guarida naqueles puros corações. Por isso, já alta noite, não conseguia conciliar o sono, com a consciência doendo por ter mentido. Levantei-me e fui até às cocheiras para ver novamente meu cavalo. Certifiquei-me que estava mesmo condenado, pois seus sintomas haviam se agravado. Então, tomei uma rápida decisão: coloquei-lhe a sela e, já que não poderia viver conosco, iria viver com ele, por este grande mundo, até que ele fosse levado pela doença. Eu não poderia sacrificá-lo e não deixaria que alguém o fizesse. Deixamos aquela região no silêncio da noite e ninguém nos viu sair. Cansados pelo movimento da festa, todos dormiam pesadamente, e não encontrei uma pessoa sequer no meu caminho. Doutor, lembro-me, como se fosse hoje, daquela caminhada para o desconhecido. Cavalguei sem parar, até que a fome me fez apear à frente de um restaurante da estrada, onde comi bastante, pois não sabia onde e quando iria comer novamente. Voltei a cavalgar e algo estranho aconteceu comigo, pois caí em sono profundo. Quando acordei, estava próximo a uma cidade sertaneja, inteiramente desconhecida para mim. Fiquei atônito. Avistei um grande circo e fui até lá, entrando no acampamento puxando meu cavalo pelas rédeas. Algumas pessoas saíram das barracas e foram ao meu encontro. “De onde vem?” perguntou alguém. Contei-lhes de onde vinha, mas não lhes disse que não sabia onde estava. Não sabia se podia confiar neles. “Você quer vender seu cavalo?” perguntou um homem, aproximando-se e começando a examinar o animal. Fiquei com medo que descobrisse a doença do cavalo e me afastassem dali. Mas, com grande espanto, quando olhamos os cascos do animal, verifiquei que não havia o menor sinal da doença fatídica. Não podia explicar o que havia acontecido, mas era apenas mais um dos fatos inexplicáveis que estavam me acontecendo. “Não, ele é a única coisa que tenho, e pretendo voltar o mais depressa possível para minha cidade.” – respondi. “Se quiser voltar para sua região, moço, vai ter que vender o cavalo” – disse o homem – “Você está muito longe de casa e este animal não ia agüentar uma viagem longa dessas...” Longe? Mais um mistério para mim. “O senhor conhece a minha região?” “Sim, de ouvi dizer. Fica há mais de oitocentos quilômetros daqui. Na verdade, só conhecemos até perto do convento.” Convento? Minha cabeça estava girando. O convento ficava muito longe de minha casa. Como pudera chegar tão longe, sem ter a menor noção do tempo e do espaço? “É, moço, se quiser ficar, estamos precisando de alguém como você para trabalhar. Aceita?” Com a mente envolvida por tão denso mistério, decidi aceitar a oferta e comecei a trabalhar com aquela gente. Havia muito o que fazer, mas a idéia de voltar para casa estava fixa em minha cabeça, principalmente agora, que meu cavalo estava em perfeitas condições. O que estariam pensando meus pais? E Dorinha? Afinal, o que acontecera comigo? Estava sempre perdido no círculo vicioso dos meus pensamentos. Mas o tempo foi passando e me acostumei com aquela vida. Conheci uma moça muito agradável e nos apaixonamos. Casamos e tivemos um período muito feliz. Meus sogros eram como meus pais, e nos sentimos realizados quando nasceu minha querida Nice. O trabalho não me dava muito tempo para sair, mas já havíamos combinado de ir até minha cidade e nos confraternizarmos com minha família, tão logo Nice estivesse um pouco mais crescida. Passei a sonhar com essa viagem, embora não soubesse, por qualquer meio, o que se passara por lá em minha casa, desde que a deixara. Eram imagens do passado, e ia relegando minhas lembranças a um cantinho de minha mente, agora toda voltada para o meu lar e para minha querida família. Por fim, decidimos que chegara a hora e fizemos um almoço especial, para o qual convidamos meu vizinho José. Estávamos, também, festejando cinco anos de minha chegada ali. Porém, o destino foi mais forte que os meus planos. Estávamos almoçando quando a porta se abriu repentinamente e dois homens enfurecidos invadiram nossa casa e passaram a nos agredir. Procurei me defender, defender minha família, e a raiva me deixou cego! Também reagi com fúria e, quando dei conta de mim, um dos atacantes jazia morto e o outro havia fugido. José também havia recebido um golpe fatal. Esperei que minha família me defendesse mas,  vítima de um ciúme profundo, minha esposa acreditou que tudo havia sido motivado por ter eu seduzido a filha de um dos atacantes, exatamente aquele a quem eu havia tirado a vida... O resto, o senhor já sabe, doutor!...

         O delegado ficou de pé e, se voltando para um muro que estava próximo, gritou:

         - Venha, Nice, venha abraçar o seu pai, pois parece que ele já vai embora outra vez!

         Saindo de trás do muro, uma linda jovem se precipitou correndo e me abraçou. Eu, tonto, não sabia exatamente o que estava acontecendo. A jovem chorava e sorria, e me disse:

- Ó, meu paizinho querido! Não irás mais sozinho. Para onde fores, eu irei junto...

         Minha emoção foi tão grande ao saber que aquela jovem era minha querida Nice que senti minhas pernas fraquejarem. Ó, meu bom Deus! Não há como descrever minha felicidade naquele encontro! Sentamo-nos novamente naquele banco, e ela me envolvia o pescoço num abraço. E foi contando muitas coisas novas para mim.

         - Estou noiva do filho do delegado. Já marcamos nosso casamento para breve e logo iremos visitar meus avós, que estão à tua espera, ansiosos para te ver.

         Olhei aquele rostinho lindo, os olhos brilhantes e, quase num murmúrio, perguntei:

         - E sua mãe, onde está?

         Ela baixou a cabeça e demorou um pouco a responder:

         - Morreu!... Morreu de parto. Esperava um filho. Certamente, um filho que não era teu...

         - Ó, meu Deus! – Gritei, sentindo uma dor em meu peito.

         Virei-me para o delegado, sentindo meus olhos turvos pelas lágrimas.

         - Que infelicidade, meu Deus! O senhor sabia de tudo, durante todo esse tempo, e não me disse nada... Por quê?

         - Sim, meu bom amigo, não lhe disse nada para não aumentar seu sofrimento. Quando tive certeza de sua inocência, fui procurar sua família e lhes contei tudo. Naquele dia em que o levei àquele terreiro, a entidade de minha confiança me recomendou que eu nada lhe contasse. Até mesmo me revelou que você é meu filho espiritual, o que me deu alegria e angústia ao mesmo tempo, pois não poderia revelar este fato a ninguém enquanto você estivesse no presídio. Seria melhor para todos. E assim fiz...

         Então, um carro parou perto de nós e dele desceu um jovem. Era o filho do delegado, o noivo de minha filha. Simpático, apertou-me a mão e, abraçando-me, disse que tinha um grande prazer em me conhecer e estava muito feliz com minha libertação. Fui para a casa de Wagner e me trataram com muito amor para que me recuperasse bem. Estava ansioso para voltar à casa de meus pais. Wagner conseguira o endereço e escrevera para eles, relatando o meu drama. Estavam, também, ansiosos para me ver. Em poucas semanas, Nice se casou e nos preparamos para a viagem. Foi com grande alegria que chegamos àquele lugar onde eu passara meu primeiro período da vida. Meus pais, já bem idosos, felizes e emocionados, me receberam com muito amor. Apenas meu pai me repreendeu pelo que eu havia feito:

         - Veja, meu filho, o que acontece com os grandes médiuns sensitivos que fogem à sua missão!

         - É, meu pai!... Eu tive que ir em busca do meu carma, dos meus cobradores...

         Minha volta foi muito festejada. Meus pais e meus irmãos resolveram fazer uma reunião para me homenagear. Os amigos da família, muitos dos quais nem me haviam conhecido pessoalmente, compareceram e pude reviver aquela mesma alegria e confraternização que existia quando eu era jovem. E me reencontrei com Dorinha! Embora magoada pelo que eu lhe fizera, guardava o mesmo amor e parece que sabia que eu um dia voltaria. O tempo deixara suas marcas, mas aquele olhar meigo ainda era o mesmo que me emocionara naquele passado tão distante... Apesar do que eu havia feito, ela não me repreendeu, não me falou dos pesadelos que tivera. Apenas me olhou e, naquele momento, senti que também eu nunca pudera amar ninguém mais do que a ela. Num curto espaço de tempo, casei-me com Dorinha. Então, vivi um período de felicidade, sentindo um bem-estar tão grande que, por vezes, sentia medo de que tudo se acabasse. Tivemos três filhos, e o mais velho chamou-se Wagner, em homenagem ao meu querido amigo delegado, o meu pai espiritual que tanto me ajudara, e que se aposentara e fora viver com o jovem casal, Nice e seu filho, já formado em Advocacia. Nice também teve um filho e, junto a minha família, com meus filhos e meu neto, achava-me recompensado de todos os meus sofrimentos. Meu bom Deus me havia dado em dobro por tudo que eu passara... E assim transcorreu aquela nova etapa de minha vida, até que chegou o momento de partir, o grande dia, o dia do meu desencarne! Havia chegado ao fim de minha missão, de minha história. Era o momento de partir para Deus! Tive uma febre muito alta e fui perdendo a noção das coisas. Em meu corpo ainda, respirava fracamente e ouvia, distante, vozes, gritos e soluços. Aos poucos, tudo foi desaparecendo e segui o meu destino. Não sei bem o que aconteceu, mas me lembro que despertei em um local desconhecido, com a sensação de estar só. Não via ninguém e, quando falei, somente um eco muito forte respondeu. Parecia ouvir chamados e sermões, mas me sentia em completa solidão. Após um período, que não sei determinar quanto tempo durou, naquele local, ouvi uma voz que dizia:

         - Passageiros que partem para a Terra! Concentrem-se para descer!...

         Preparei-me para obedecer quando uma voz me falou, e jamais esquecerei o que disse:

         - João Amando da Silva! Não precisa se preocupar. Fique onde está. Logo uma equipe de médicos estará aqui e, em breve, você será conduzido ao verdadeiro mundo dos espíritos. Não voltará à Terra, porque você tem bônus e não ficará vagueando.

         Senti-me emocionado, mas uma ligeira dor cortou meu coração – a saudade dos que deixara na Terra! Lembrei-me das palavras de Jesus: “Deixem os mortos enterrarem seus mortos...” De repente, chegou aos meus ouvidos o rumor de uma queda d’água. Sem saber como, eu estava me aproximando do som e, pouco depois, surgiu diante de meus olhos uma cachoeira, num espetáculo deslumbrante de selvajaria e desordem, uma branca espuma dançando entre os penhascos. Era um cenário maravilhoso. Havia um caminho, por onde fui andando, acompanhando o leito do rio, e fui penetrando na floresta, enquanto um vento estremecia as copas das árvores e as folhagens balançavam como que descobrindo a brisa da manhã. Fora a cachoeira, tudo era silêncio e harmonia ao meu redor e eu respirava aquela brisa, que corria em todo o meu ser. Sentia-me embevecido por tudo aquilo. Até hoje não encontro palavras ou analogia para descrever a felicidade e a harmonia que sentia ali. Aqui e ali aparecia a Terra, manchada pela luz do Sol, e, ao mesmo tempo, parecia ir se distanciando.

A harmonia resulta do acordo perfeito entre nossa mente e o nosso Sol Interior. A minha freqüência assídua às sessões espíritas ajudou-me muito, pois o esclarecimento me orientava por onde devia andar, por impulsos vindos do perispírito, através dos plexos correspondentes. Como sabem, somos ligados ao corpo pelo cordão fluídico e este só se desliga com a morte. Logo após a morte nos sentimos leves como uma pena. Por isso, entendi o que se passara comigo. Tive a certeza de estar ali para sempre. Não tinha dúvidas. Tinha feito o meu desencarne e por isso me sentia tão leve. Sim, porque o plexo físico ou centro nervoso é o plexo das aspirações das grandezas da Terra. Ele pesa e nos desarmoniza. Eu estava, agora, naquela situação magnífica que acontece ao Homem quando ele se desloca da escravidão do seu corpo material. Sim, a vida é formada pelos movimentos alternativos de suas forças e esta constante vibração constitui a grandiosa obra da transformação universal. Naquele bailado de luzes e na ternura daquela brisa, pedi a Deus que me despertasse do torpor que sentia. Sem noção do tempo ou do espaço, ouvi uma voz que despertou em mim, dizendo:

- João! Estás chegando!... Recebestes o aroma das cachoeiras e das matas frondosas. Enchestes o teu novo plexo de prana do teu espírito evoluído. Receberás de Deus o que fizestes por merecer...

         Uma súbita transformação e me vi em um grande salão, onde pessoas subiam e desciam, parecendo todos terem vindo da Terra. Ali, um grupo de senhores estava à minha espera. Era uma família formada. Juntei-me a eles e entramos numa linda Amacê, rumando para o nosso destino – uma cidade colonizada, para a qual não encontro palavras capazes de descrevê-la, tão bela era ela. Para ali só vão aqueles que não têm mais qualquer reajuste a ser feito na Terra. Comecei a recordar daquela grosseria no presídio, de tudo pelo que havia passado. Porém, imediatamente tive consciência de que atravessara, sem revolta, toda aquela missão que Deus me havia confiado. Aquele meu cobrador, que não soubera aproveitar a oportunidade oferecida pelo Divino e Amado Mestre, iria ainda penar por muito tempo, até que brotasse em seu coração a divina semente do amor, que lhe daria a libertação. Já havia pago pelos meus crimes e nada mais me restava a fazer na Terra, a não ser trabalhar na Lei do Auxílio.

         Adeus, meus irmãos! Encontro-me na Mansão dos Nicipe.

         Com carinho, a Mãe em Cristo,

                                                                  TIA NEIVA



- F I M -


O AMANHECER DAS PRINCESAS NA CACHOEIRA DO JAGUAR


O AMANHECER DAS PRINCESAS NA CACHOEIRA DO JAGUAR


 TIA NEIVA



CAPÍTULO I

         Salve Deus, meu filho Jaguar!
         De todos os males, o mais triste é aquele que deixamos em nossas passagens, é a cicatriz do nosso mau comportamento, quando estamos na Terra. Vivemos seguros ao orgulho, principalmente no egoísmo. Muitas vezes sentimos a necessidade de chorar, de sorrir, de amar, ou melhor, pensamos em ser amados, mas nunca desejamos amar incondicionalmente, para melhor atrairmos a nosso favor... Não, pelo contrário: exigimos de alguém o que nos convém, sem querer oferecer nada em troca.
         Salve Deus, meu filho! Vamos sentir a vida das Princesas e melhorar o nosso comportamento com respeito ao amor. Sim, as crioulas Princesas, em 1700, no Brasil Colônia, anunciavam o seu tempo de evolução nas senzalas. A dor do destino cármico de um povo em desenvolvimento. Então, tudo começou a vibrar quando os dois grandes missionários – Pai Zé Pedro e Pai João – resolveram agir no campo vibracional de nossa missão, com esse imenso amor, ouvindo e sentindo o Céu, os poderes de Vô Agripino, que emitia aos mesmos toda a Luz do Santo Evangelho.
         Pai Zé Pedro e Pai João – os conhecidos Enoques de todos os tempos da evolução na Terra – vendo que o Homem persistia no seu orgulho, arrogante, vieram dar fim a este triste poder. Aos 14 anos, Pai Zé Pedro e Pai João, que regulavam em idade, vieram, no mais triste quadro, em um navio negreiro para o Brasil. Eram duas personalidades com idéias transcendentais traçadas no Céu para aqueles dois missionários. Apesar de tudo, eram também dois escravos, obedientes para que pudessem dar o exemplo.
         Salve Deus! Ninguém entenderia também, naquele tempo, que aqueles dois velhos imperadores, dois faraós, que haviam vivido com tanto desamor, tanto orgulho, estivessem sofrendo, daquela maneira, nas garras dos traficantes de escravos.
         Então, aqueles dois espíritos levaram em frente sua obra. Preparados nos planos espirituais, vieram à Terra cumprir sua missão, que seria, em nossa última orientação, a Nova Estrada do Jaguar na Linha do Amanhecer. Vendidos por navios negreiros, vindos da Índia e da África, por Deus se encontraram, pela força de seu compromisso, no sul da Bahia, para onde sua forte e verdadeira mensagem os impulsionava. Então, juntos, desenvolveram as suas faculdades mediúnicas. O senhor de Pai Zé Pedro era um homem muito bondoso, que ouvia o Grande Africano Zé Pedro e amava suas palavras. Chegou a se converter, e comprou o Negro Indiano, que era Pai João, deixando-os fazer, na grande senzala, o que lhes aprouvesse.
         E tudo começou assim: eram seis fazendas reunidas, onde Jurema e Juremá, as gêmeas, eram muito queridas por toda aquela redondeza. Sua graça e beleza demonstravam sua herança transcendental de altezas. Sim, o Homem não se perde – se reencontra! Então, a grandeza dos missionários se fazia projetar por toda aquela região. Todos da redondeza ali se juntavam, em busca da caridade. Ninguém entendia porque, naquela era tão crua, de senhores tão arrogantes, pudesse ser admitida aquela liberdade.
         João pregava a Doutrina, o amor aliviando o chicote dos senhores. Pai Zé Pedro tocava os tambores para alertar seu povo nas outras fazendas vizinhas, onde vivam Iracema, Jandaia, Janara e Iramar, contando, também, com Janaína, pequena sinhazinha que muito amava os Nagôs. Eram jovens, com apenas 18 anos, que sofriam as incompreensões de suas sinhazinhas e as perseguições e seduções dos seus sinhorzinhos. Era uma desdita o que, naquele tempo, sofriam aquelas escravas missionárias. Porém, na senzala de Pai Zé Pedro, tudo ia muito bem! Vinha gente de longe, e as curas se realizavam com tanto amor que se propagou o Africanismo com a sua presença.
         Era o dia de Jurema e Juremá. A Lua surgia no céu, prateada. Os tambores ressoavam. Jurema, em pé na soleira da senzala, vibrava, cheia de amor, esperando Juremá e sua mãe. De repente, um crioulo, que também fazia parte do corpo mediúnico, disse, tremendo de dor:
         - Oh, Jurema, tua mãe não estará conosco. Amamentou a filha da sinhazinha com febre, e a febre passou para a nenenzinha.
         - Cadê mamãe?
         - Tua mãe, Jurema, está no tronco!...
         - Oh! Coitadinha! Ó, meu Deus! – gritou Jurema que, segurando o portal da senzala, sentiu seu espírito se transportar, seguindo até às ruínas de Pompéia.
Jurema, em sua visão, se sentiu uma rica princesa, entre sedas e jóias. Sua irmã e todos aqueles crioulos da senzala, inclusive a negra que, hoje, era sua mãe, ridicularizavam uma jovem escrava, hoje a sinhazinha da senzala. Jurema, compadecida da jovem – que até então era uma visão – se esqueceu da tragédia que, na realidade, estava acontecendo. Não, ela não via sua mãe no tronco, que era a realidade. Via somente a jovem escrava arrastada e ridicularizada, com todos a vaiando, chegando mesmo a machucá-la, e, em meio a esta alucinação, começou a gritar:
- Juremá! Volte com minha mãe!...
         Saiu, então, decidida para o congá. Chegando, contou tudo o que se passou a Pai João, e ele lhe explicou:
 - Filha, não chore, não se desespere. Eu, você, sua mãe e todos os seus irmãos vivíamos na mais rica vida em Pompéia. Eu era Procurador, Zé Pedro era Imperador, e todo esse povão estava lá. Só Deus sabe, minha Jurema, os desatinos, as tragédias que provocamos naquele império. Fizemos a mais terrível escravidão. Hoje, filha querida, Deus nos deu essa oportunidade de pagar todo este mal. Esta pequena sinhazinha é o espírito da jovem escrava de Pompéia.
 - Então, Pai João, como tudo terminou?
Pai João, colocando a mão em sua cabeça, disse:
 - Dorme, filha... Dorme, Jurema...
Deitada com a cabeça no colo de Pai João, Jurema adormeceu, dizendo baixinho:
- Ó, meu fidalgo centurião, como pôde me abandonar neste caminho tão espinhoso? Onde vives, que eu não posso te alcançar? Sim, meu fidalgo, continue acariciando meus cabelos, que ficaram tão longos...
         Nisto, um grito, e ela se levantou, decidida, dizendo:
         - Não voltarei para minha senzala! Vou-me embora daqui...
         Com muito custo conseguiram acalmar Jurema. Os tambores recomeçaram, mas Jurema, pensativa, não saiu do lugar. Pai Zé Pedro iniciou os trabalhos, e veio sentar-se perto de Pai João e Jurema. Jurema segurou em suas pernas. Depois, apoiou novamente sua cabeça na perna de Pai João, não sentindo coragem para se levantar.
- Jurema, minha filha – disse Pai Zé Pedro –, choras pela tua mãe?
- Não, Pai. Choro porque vi e perdi o meu amor... Agripa, o meu amor! Eu o vi acariciar os meus cabelos... – e passando a mão na cabeça, meio sem graça, Jurema continuou – Oh, paizinho Nagô, é tudo tão diferente!...
- Sim, filha, se acalme. Eu vou lhe mostrar onde e como se encontraram.
         - Não, Pai, não quero. Se ele for aquele crioulo feio do Japuacy, não quero. Ele não está aqui como vocês estão, todos nós estamos. Mas ele não pode. Não admito que seja feio como nós.
         Os dois deram uma risada. Preocupado, disse Pai João:
 - Vejam no que dá a clarividência de uma pobre jovem...
Jurema voltou a sentar-se. Pai Zé Pedro e Pai João vibraram, preocupados. O que fazer? Levá-la para a Cachoeira do Jaguar? Deus Todo Poderoso! Só Ele poderá traçar este destino.
         E ali ficaram, esperando a jovem despertar para decidir o seu destino, que tanto se agravara.

CAPÍTULO II

         Salve Deus, meu filho Jaguar!
         Deus, de fato, toma, cedo ou tarde, o partido dos que se dizem inocentes, porque o cristianismo surgiu, por canais piedosos, numa era difícil.
         Jurema dormia. O dia começava a raiar e os escravos não tinham vontade de sair da senzala. Pai Zé Pedro pediu a Pai João que deixasse Jurema a seus cuidados. Determinaria outros escravos para ajudarem a zelar por ela. Pai João ainda era escravo recente naquela senzala.
         Inesperadamente, o feitor chegou à soleira da senzala, gritando para que cada um tomasse seu rumo. Todos saíram, exceto Pai Zé Pedro, que era protegido do sinhorzinho e gozava de alguma liberdade.
- Quem é essa crioula, Zé Pedro? – perguntou o feitor.
- É Jurema, que desde ontem não quer se levantar. Está sofrendo pela mãe, que está no tronco.
- O quê? – bradou irado o feitor – Quem já viu uma crioula com um mimo desses? Mimo é para a sinhazinha. Vou levantá-la agora mesmo com este chicote!
         E, marchando para a cama de Jurema, fez menção de levantar o chicote. Ouviu-se o grito de Pai Zé Pedro:
- Se arremessar, eu o mato!
E seu grito foi tão grande que se fez ouvir pelas redondezas. O feitor, enfurecido, passou a arremessar o chicote de qualquer jeito, blasfemando horrores e ameaçando ir contar ao senhor de Jurema onde ela estava.
- Não! – gritou Pai Zé Pedro – Não o fará. Os Ferreiras são muito malvados e irão castigá-la. Não o fará!
Então, a senzala de encheu de negros Nagôs, intimidando com sua presença o feitor que, amedrontado, saiu, e foi direto contar ao senhor de Jurema o que se passara. Foi um reboliço. O senhor de Pai Zé Pedro mandou chamá-lo e pediu que contasse o que estava acontecendo. Pai Zé Pedro disse que havia sido por conta da malcriação da pequena crioula.
Reunidos no terreiro, os negros ficaram pensando no que fazer. Logo, chegou o senhor de Jurema, que entrou como um raio e pegou a moça nos braços, furioso.
- Maldita! Tanto a mãe como as filhas são feras, são irresponsáveis, são negras malvadas, imundas – e continuou suas blasfêmias, deixando os Nagôs sem ação.
De repente, ouviu-se um estampido, na serra. Tiros começaram a ecoar e todos correram para ver o que era.
- Afastem-se – gritou o feitor – e peguem as armas. Não deixem que eles desçam até aqui.
Os negros, aproveitando a confusão, abandonavam tudo e fugiam da fazenda. Pai Zé Pedro e Pai João correram para a casa grande, a fim de defender seu senhor.
O ataque prosseguiu. Era um bando de negros fugidos, revoltados contra a escravidão, que se vingavam dos maltratos recebidos atacando e saqueando as fazendas. Matavam as crianças, roubavam animais e levavam o que podiam. Com roupas esfarrapas e fortemente armados, impulsionados pelo ódio, pela revolta, os negros cercaram a casa grande, prontos para o ataque final. Foi quando Pai Zé Pedro apareceu na soleira e gritou:
- Parem! Parem!...
Um silêncio muito grande se seguiu. Os negros, petrificados, estancaram, surpresos pela presença de Pai Zé Pedro.
- Sigam seu destino! – disse Pai Zé Pedro – Levem algumas leitoas, e vão embora.
- Tem alguém no tronco? – gritou um dos assaltantes.
- Não – respondeu Pai Zé Pedro – Aqui não encontrarão nem tronco. O meu senhor é meu filho.
Pai João saiu de trás de uma grande árvore, perto da casa grande. Um crioulo, que estava a cavalo, deu-lhe um tiro, acertando no ombro. Jurema, que havia sido deixada pelo senhor que fugira, apavorado com o ataque, saiu da senzala e correu para socorrer Pai João.
- Queremos o senhor branco – gritavam os negros.
Amparado em Jurema, Pai João disse, com ternura:
- Chega, meus irmãos, chega. O ódio é amigo da fome. Voltem para seus donos. As onças vão lhes comer nestas matas. Deixem de ódio! – com a voz entrecortada pela dor, Pai João continuou – Vamos, desçam! Eu não tenho medo de vocês... Deixem de ódio!
- Vamos descer – disse um velho africano e, num instante, todos estavam no terreiro, reunidos em volta de Pai Zé Pedro, como que preparados para ouvir o que ele tinha para lhes falar.
Pai Zé Pedro perguntou as razões da fuga, o porquê de estarem fugidos. O velho africano contou a história:
- Éramos trinta, entre homens, mulheres e crianças. O nosso sinhorzinho entregou-nos para o feitor, e todos os dia morria nêgo de tanto apanhar. Então, resolvemos sair matando, até encontrar sossego.
- De onde vocês vêm? – perguntou Pai Zé Pedro.
- Viemos da Fazenda Esperança, no Engenho Velho.
- Como? O Engenho Velho fica muito longe daqui. Meu Deus! – exclamou penalizado Pai Zé Pedro.
Os negros pareciam enfeitiçados com Pai Zé Pedro. Disseram:
- Vamos ficar aqui, se o senhor deixar. Obedeceremos e não vamos aborrecer ninguém.
- Ó, meu Deus! – gemeu Pai Zé Pedro – Já temos muitos negros por aqui!
Uma crioula, aparentando uns trinta anos, saiu do grupo e falou:
- Sei tecer o fio, desde que me dê o algodão. Posso ser útil.
Aproximaram-se oito crioulas, com idades entre 18 e 35 anos, e alguns negros, também jovens, ansiosos pela resposta de Pai Zé Pedro.
- Chame o seu senhor – falou um negro, chamado Jerônimo, que parecia ser o líder do grupo.
O senhor saiu para a varanda. Os negros se ajoelharam e pediram perdão. Muitos choravam como crianças. Eram almas em busca de Luz, mariposas encandeadas pela luz. O senhor concordou com que ficassem. Foi uma grande alegria. Os nagôs foram se acomodando na senzala e Pai Zé Pedro, preocupado, decidiu ver aquele quadro. Cochilou, e entro em transe. Viu que aqueles negros eram um grupo de velhos e tradicionais centuriões da antiga e distante Roma. Viu, também, Pai Seta Branca, que lhe falou:
- Calma! Calma, José Pedro. Estes centuriões, que hoje são negros, estão sob a tua tutela. Foram seus algozes e, entre eles, estão também Messalina, Policena, Emeritiana – sim, a tua Emeritiana – hoje na figura de Zefa. Salve Deus, José Pedro! Amor, tolerância e humildade! – e, a seguir, Pai Seta Branca desapareceu.
Pai Zé Pedro despertou com o barulho dos negros. Pensou:
- Sim, e João, o quê vai pensar?  Como irá entender isso? Ó, meu Deus, como me libertarei?
Nisso, Jurema vem correndo a seu encontro, falando:
- Pai Zé Pedro! Pai João! Eu vi um índio muito lindo, que me falou sobre estes negros. Eles são dos nossos, e vieram para nos salvar do meu sinhorzinho.
Pai João deu uma risada e disse:
- Salve Deus! Eu não o vi, mas senti tudo o que se passou. Jurema, tu és minha filha. Eu e tua mãe somos dois amores.
Os três se abraçavam, comovidos, quando ouviram a voz do sinhorzinho, dono da fazenda, que chegava.
- Quero também me confraternizar neste abraço. Zé Pedro, você salvou nossas vidas. – e virando-se para Jurema, falou: - Vou comprar você, sua mãe e sua irmã, a Juremá.
Os quatro se abraçaram, com as cabeças juntas e em um só coração. Combinaram de fazer uma grande festa no congá. A notícia alegrou os negros, que começaram a bater os pés e palmas, cantando em linguagem Nagô. Olhando-os – os velhos Jaguares, ou negros, ou centuriões – Pai Zé Pedro sussurrou para Pai João:
- Ó, meu Deus! Emeritiana está ali, e Anetra também! O que será de nós, João?
Pai João, segurando o ombro ferido, respondeu:
- Onde está o amor, está a compreensão!
A noite chegou e encontrou os negros em grandes preparativos. Os que haviam fugido na hora do ataque já tinham voltado e trabalhavam com os que haviam chegado, que pareciam bem disciplinados. Todos, alegres, preparavam a grande festa do congá. De repente, um grito. Era Iramar que chegava, esbaforida, trazendo a notícia:
- O povo da fazenda dos Ferreiras está preparando o cerco da fazenda, para atacar os negros e levar Jurema de volta!
         Estabeleceu-se a confusão. O pânico voltava a reinar na senzala, quando Pai Zé Pedro, mais uma vez, assumiu o comando da situação, dizendo:
         - Salve Deus! Fiquem calmos e vamos resolver o que fazer.
         Os negros se aquietaram e se chegaram a Pai Zé Pedro.

CAPÍTULO III

         Salve Deus, meu filho Jaguar! Não estamos preocupados com velhos documentos das velhas escrituras. Estamos, sim, desejosos de saber onde os nossos antepassados encontraram tanta força e tanta coragem para chegar até aqui. Sim, meus filhos, o missionário tem, graças a Deus, a sua energia e toda harmonia nos três reinos de sua natureza. Muitas vezes, contando, até pensamos ser irreal o que nos dizem sobre os escravos e seus missionários.
         Como foi visto, a festa do congá foi interrompida pelo ataque dos Ferreiras. Pai Zé Pedro tentou segurar os negros no congá mas, quando deu conta, os mais jovens já haviam saído e enfrentavam os atacantes. Logo haviam dominado a situação e Pai Zé Pedro viu, surpreso, os negros atacarem os Ferreiras e seu grupo, açoitando-os entre pragas e gemidos. Foi quando descobriram o feitor, corpulento e furioso, que avisara aos Ferreiras a presença de Jurema na fazenda. Atacaram-no com violência.
         - Sou o feitor desta fazenda! – gritou ele, tentando intimidar os atacantes. Mas, em vão. Pegaram-no e o golpearam por todo o corpo, enquanto ele gritava: Esses nagôs estão me assassinando! Socorro!
         Quando os negros o deixaram, urrava de dor, inerte no chão. Pai Zé Pedro se aproximou do feitor e viu que o homem estava com a coluna atingida, não havendo chance de se recuperar. Estava aleijado para sempre!
         - Ó, meu Deus! – exclamou Pai Zé Pedro – Como poderemos resgatar tal dívida com este pobre irmão?
         Alguém que estava ao lado falou:
         - Ora, Pai Zé Pedro, acho muito bom que ele nunca mais caminhe para chicotear nossos irmãos!...
         - Meu Deus! Meu Deus! – Pai Zé Pedro dizia, andando de um lado para outro – Ó, meu Deus! Este homem que nunca mais vai andar!...
         Pai Zé Pedro andou mais um pouco e se deparou com um triste quadro: Ifigênia, uma jovem negra, filha de Júlia, uma paralítica, estava caída, com o crânio aberto por pancadas. Foi buscar o sinhorzinho, para que visse o resultado da luta. Alguns homens haviam morrido, mas nenhum dos Ferreiras fora seriamente ferido, e tinham fugido. Só restara o feitor, caído e gemendo de dor.
         O Sol já começava a clarear o horizonte quando os negros se reuniram no terreiro, em volta de Pai Zé Pedro. Eram quarenta nagôs. Um, que ainda não havia se manifestado, saudou:
         - Salve Deus! – e incorporou Pai Jerônimo, falando com Pai Zé Pedro: - Eles vão voltar para vingar a humilhação. Não podem mais ficar aqui. Levanta acampamento! Leva Jurema e Juremá, recolhe teu povo e segue, rumo à Cachoeira do Jaguar, que desemboca nas águas grandes do mar. Nós vamos ficar, e seguiremos depois, quando tivermos libertado a desditosa mãe destas gêmeas – e apontou para Jurema e Juremá.
- Não, eu não permitirei – gritou Pai Zé Pedro.
         - Como? – disse Pai Jerônimo – Como se atreve a duvidar de teu irmão? Vão embora, que eu a levarei. Se demorarem a partir, haverá mais mortes. Vamos, vamos logo! – e Pai Jerônimo desincorporou
         Pai Zé Pedro e Pai João decidiram acatar o aviso. Rapidamente, todos juntaram as coisas que podiam levar e se despediram do sinhorzinho e da sinhazinha, com amor. O feitor, por ordem de Pai Zé Pedro, que não queria abandoná-lo à própria sorte, foi acomodado em uma padiola de varas. Alguns crioulos ficaram na fazenda para ajudar a enterrar os mortos. O sinhorzinho também arrumou suas coisas, juntou a família, e se preparou para mudar da fazenda, indo para a cidade onde viviam seus pais.
         Os negros já estavam marchando quando ouviram, ao longe, um tiro de clavinote. Pouco mais à frente foram alcançados pelos nagôs que haviam ido buscar a mãe de Jurema e Juremá.
         Eram 108 negros os que chegaram, após longa caminhada, à Cachoeira do Jaguar. A noite ia alta, mas a Lua cheia clareava tudo. Podiam ver a mata, com suas palmeiras balançando suas folhas, como em uma prece, a areia branca e o mar prateado pelo luar. Pai Zé Pedro, sentado em uma pedra, descortinava todo o quadro por onde teria que passar com aquela gente. Pai João se aproximou e disse, olhando a maravilhosa paisagem:
         - Sim, tudo pela condenação da matéria! A terra... A terra... Tão lindo o mar e, no entanto, a terra é o que nos pertence, por ser a parte sólida deste planeta. Porém, o que me conforta é que as forças cósmicas continuam em atividade, porque, neste Universo, não há inércia. Tudo se movimenta em nosso favor, pela bênção de Deus! A Sua atividade é, essencialmente, produtora desta nossa matéria orgânica e inorgânica. Logo nos dará forças, graças a Deus!
         Pai Zé Pedro sorriu, ouvindo-o, e perguntou:
         - Onde aprendeste tanto? Estas não são palavra de Nagô...
         - Estou tentando consolar a mim mesmo, Zé Pedro. Por que não pede ao Mestre Agripino? É ele quem me consola.
         Foi quando os dois começaram a sentir a energia que chegava.
         - Sim, Zé Pedro, a atividade do Homem é essencialmente produtora e as forças essencialmente ativas. Como já disse, cria na matéria orgânica este arsenal de forças. Portanto, temos que organizar um ritual, uma jornada, vestimentas que mudem a sintonia dos crioulos. Sim, Zé Pedro, vamos erguer esta arma para o Céu!
         - Sim, João, é realmente um arsenal. Ó, meu Deus!...
         Olharam a paisagem tranqüila. Pai João voltou a falar:
         - Faremos uma jornada em frente à cachoeira. Arranjaremos penas e enfeitaremos as crioulas, que ficarão como lindas princesas dos castelos encantados de que já ouvi falar.
         - E eu, que pensei que você, meu irmão, era um simples escravo!...
         - Sim, – disse Pai João – tenho Vô Agripino que vem nos meus sonhos e me conta tudo.
         - Eu também tenho um índio que me falava quando eu ia entrar no chicote do feitor – falou Pai Zé Pedro, rindo.
         Então, lembraram-se do feitor paralítico que haviam trazido.
         - Meu Deus! O que vamos fazer com esse pobre homem?
         Mas foram interrompidos por um grito que rompeu a calma. Era Jerônimo que gritava, como se estivesse sendo perseguido.
         - Ó, meu Deus! – exclamou Pai João – Nossa vida não tem fim...
         Continuaram a sorrir.
         - Sim, João, e o ritual?
         - Faremos. Precisamos de energia para obter curas desobsessivas. Salve Deus! Faremos tudo como Deus determinar.
         Os crioulos vinham em busca dos dois, enquanto os gritos continuavam.

CAPÍTULO IV

         Salve Deus, meu filho Jaguar!
         O dever é obrigação moral da criatura para consigo mesma, em primeiro lugar; em segundo, para com os outros. O dever é a lei da vida! Meu filho, a virtude é o mais alto grau onde o Homem encontra sua liberdade espiritual. A virtude é a forma que sobrevive e explica a Natureza do Homem, porque tudo está contido em Deus. Sempre estamos a percorrer as ruínas de nossas vítimas, das suas vidas, sem preocupação exata da nossa missão. Hoje, meu filho, estamos tentando acreditar no que nos dizem os nossos antepassados,
         A noite da chegada à Cachoeira do Jaguar foi um tumulto de emoções. Alegria e tristezas, risos e choros. Jerônimo chegara aos gritos. A mãe de Jurema e Juremá estava muito mal. Mesmo assim, apesar dos sobressaltos e do cansaço, os negros se acalmaram com as palavras de esperança de Pai Zé Pedro e de Pai João. Conseguiram dormir.
         Quando o dia raiou, todos, animados, começaram a apanhar as folhas das palmeiras e material para construir suas choupanas. Trabalhando felizes, em oito dias haviam construído um lindo povoado. E na melhor sintonia possível, fizeram um formoso congá.
         No dia do grande congá, todos estavam realmente felizes e desejosos de receber a energia maravilhosa de que lhes falara Pai Zé Pedro. Este, juntamente com Pai João e Henrique de Enoque, um dos nagôs que muito se identificara com os dois, foram até a choupana onde Jurema cuidava de sua mãe moribunda.
         Quando entraram na cabana, Jurema ergueu a cabeça e, como se estivesse dormindo, com os olhos cerrados, saudou-os:
- Salve Deus! Seja benvindo a esta terra, meu estimado Procurador. É árdua esta missão que escolhestes, de Nagô. Assim, assumistes a maior das missões. Oh, como me orgulho de ti, meu filho! Orgulho-me de ti! Como em poucos, tenho o mais puro exemplo em ti, meu filho, de agora em diante.
         Jurema abriu os olhos e, um pouco estonteada, voltou para junto de sua mãe. Os três correram para ela, dizendo:
         - Oh, filha, não sabes o bem que nos fizestes!...
         Ela começou a chorar,  e disse:
         - Sim, eu sei. Ouvi tudo o que lhes disse. Apenas não pude me impedir de dizer!...
         Pai Zé Pedro olhou para Pai João e perguntou:
         - Como? Segundo Vô Agripino, ela passou por um processo de incorporação consciente. E quem tomou seu corpo?
         - Os Anjos e Santos Espíritos que prometeram nos proteger nesta jornada. Jurema será a Voz Direta do Céu! – respondeu Pai João.
         Deram graças a Deus e começaram a comentar o que se havia passado. Pai Zé Pedro reconhecera em Henrique o seu velho Procurador romano. Pai Zé Pedro, como Imperador, o havia mandado a Pompéia e, agora, o reconhecera. Não estava tão seguro, até que Jurema fez a confirmação. O reencontro se dera naquele lugar primitivo. Pai João, filosofando, falou:
         - Todos somos livres, neste mundão de Deus! Até mesmo para acreditar, desejar, escolher, fazer e obter. Mas todos somos, também, constrangidos a penetrar nos resultados de nossas próprias obras. Não existe direito sem obrigação e nem equilíbrio sem consciência.
         - Nesse caso, a consciência de Jurema é equilíbrio?
         - Graças a Deus! Por isso me faz tanto bem, Zé Pedro.
         - Sim, João. E a mãe de Jurema irá morrer?
         - Não, Zé Pedro. A doença é apenas o conflito do seu estado externo, falta de energia física. Não precisamos nos preocupar.
         - Aceito sua afirmação, João. Fico feliz e seguro de saber de seus sonhos com Vô Agripino. Seria tão bom se eu também pudesse sonhar com ele. Porém, devemos dar graças a Deus por termos você!
         - Sim, Zé Pedro. Mas ele ralha muito comigo!
         - Sim, João. Também tenho um índio. Eu já lhe disse, não?
         - É verdade, Zé Pedro, é verdade. E quer saber mais? Fui informado que Vô Agripino é o pai espiritual desse seu índio.
         - Êh, João, espera... Vamos devagar...
         Foram interrompidos pelos gritos de alegria de Tomás, que havia visto um pequeno barco que chegava. Nele, vinha para integrar o grupo a sinhazinha Janaína!
         - Vê, – disse Pai Zé Pedro – Jurema bem que nos disse ter visto uma linda loura e um crioulo que chegavam, com belas mantas para as crioulas.
         - Sim, Zé Pedro, mas cuidado. Você está fazendo muitas observações, e isso é muito perigoso. Deixe que as coisas decorram sem muita precisão de sua cabeça.
         Desembarcaram todos, e Janaína parecia que já era esperada por aquela gente. Trouxe muitas mantas e pequenos terços, e mandou colocar sua bagagem na cabana de Jurema. Chegou a Pai Zé Pedro e pediu:
         - Gostaria de viver aqui, se me permitissem.
         - Quer viver aqui, morar conosco? – perguntou Pai João, que pensou: Meu Deus, quantas complicações!...
         - Sim. – respondeu Janaína – Meu pai é dono de engenho e tem grandes negócios na Europa. Não tem tempo para mim. Minha mãe morreu. Sentia-me muito só, até que sonhei que, nesta Cachoeira, alguém me esperava. Assim, vim com Chiquito, para nunca mais voltar. Libertei todos os negros que estavam no tronco, e sei que eles também chegarão até aqui. Agora, que já os encontrei, Chiquito vai voltar. Vai virar o barco e alardear que caí no mar e me afoguei. Todos pensarão que morri, e estarei aqui, em paz.
         Todas as jovens estavam juntas, dando risadas. A euforia com a chegada de Janaína foi tão grande que, naquele dia, não houve sessão no congá.
         A vida ia correndo em calma. Cada um conhecendo melhor os outros e, assim, evoluindo em grande harmonia. Pai Zé Pedro se evoluía, a cada dia, no aprendizado de Pai João. Em vez das sessões no congá, davam preferência às histórias doutrinárias de Pai João. E sempre Vô Agripino se esmerava ao lado de Pai João.
         Em resumo: ali acontecia a Doutrina secreta, mãe das religiões e filosofias, que se reveste de aparências diversas no correr das idades, porém mantendo imutável a sua base em toda parte. Sim, nascida simultaneamente na Índia e no Egito, passando daí para o Ocidente com a onda das emigrações. Assim é que, por toda parte, através da sucessão dos tempos e dos rastros dos povos, afirma-se a existência de um ensino secreto que se encontra idêntico no fundo de todas as grandes concepções religiosas ou filosóficas. Os sábios, os pensadores, os profetas dos templos e dos países mais diversos, nela acham a inspiração, a energia que faz transformar e empreender as grandes coisas que aliviam as almas e equilibram as sociedades.
         Naquela noite, estavam todos sentados diante de uma linda fogueira, atiçada por Pai Joaquim e Mãe Dita. Todos se concentravam nas chamas, enquanto Pai João, cochilando, ia recebendo todas essas coisas, ensinamentos e lições, que iam ficando gravados no fundo de sua alma, junto a uma paz, uma serenidade e uma força moral incomparáveis.
         Todos alegres, nem se lembravam do feitor, que repousava, inerte, na última choupana do povoado. Como com a união se faz a força, são obtidos, geralmente, resultados satisfatórios sobre os encarnados. Todos estavam descontraídos, desprevenidos, alheios aos seus pensamentos e preocupações. Exceto Jurema, que não saía da cabeceira de sua mãe.
         A festa foi interrompida por um triste espetáculo: Jurema, com um pedaço de madeira na mão, surgiu no meio deles, completamente transtornada, gritando e ameaçando a todos, como se fosse o feitor.
         - Negros desgraçados, preguiçosos...
         E, com os olhos fechados, golpeava todos ao seu redor. Gritou para Pai Zé Pedro:
         - Vem, negro desgraçado, vem me matar!...
         Pai Zé Pedro, vendo que ela poderia cair na fogueira, correu para segurá-la. Foi atingido por Jurema, que também golpeou Pai João, que correra para ajudar Pai Zé Pedro. Jurema, completamente fora de si, parecia um animal enraivecido. Pai João, machucado, ajoelhou-se e, erguendo os braços para o Céu, na força do chamado Deus Africano, gemeu como um leão, dizendo:
         - Ó, OBATALÁ! Ó, OBATALÁ! Ó, OBATALÁ! ENTREGO, NESTE INSTANTE, MAIS ESTA OVELHA PARA O TEU REDIL!
         Jurema soltou o porrete e saiu cambaleando, em pranto doloroso. Pai Zé Pedro, enxugando o sangue que lhe corria pelo rosto, chegou-se a ela, acariciando-lhe os cabelos. Jurema, desesperada, fazia-lhe perguntas:
         - Não tens raiva de mim? Não te zangastes?
         - Não, filha! – conseguiu dizer Pai Zé Pedro – Conheço o fenômeno, e tu só me fazes bem!
         Jurema levantou os olhos. Os grandes olhos, rasos de lágrimas, emitiam a Pai Zé Pedro toda a sua ternura. Pai Zé Pedro sentiu todo o amor de sua vida. Naquele momento, os dois percorreram o transcendente e, como por ventura, Jurema viu o famoso Procurador que a cortejava, a quem tanto amava. E enquanto todos estavam empolgados com o fenômeno desencadeado por Pai João, quando fez aquela emissão ou elevação, com toda a força de seus sentimentos, Jurema permaneceu abraçada com Pai Zé Pedro, vivendo a emoção daquele reencontro. Pai João voltou ao seu lugar, e ouviu Vô Agripino, que lhe falou:
         - Salve Deus! Viu, João? Fizestes tudo tão perfeito porque tens constantemente livre o teu Sol Interior. Entregaste-te ao cristianismo, esquecendo-te de ti mesmo. Sim, o ensino é como pétalas de rosa que caem em nossas mentes, enquanto vai orvalhando os três reinos de nossa natureza.
         - E o Centro Coronário, que me ensinastes uma vez?
         - Sim, este guarda as pérolas que levamos para a vida eterna. – e Vô Agripino finalizou: - Não te assustes com Zé Pedro. Não te esqueças que ele tem apenas 40 anos aí na Terra!
         Pai João ficou meio confuso com a advertência. Viu Zé Pedro, que ainda falava com Jurema. Então, pediu que Vô Agripino ainda respondesse a algumas perguntas. Vô Agripino esclareceu Pai João:
         - João, sabes quem tomou o aparelho de Jurema?
         - Não, meu Vô. Quem?
- O feitor!
         - O feitor? Como? Ele morreu?
         - Não. O seu ódio é tão grande que ele se desprende do corpo e faz o que fez.
         - Meu Deus!...
         - Sim, e não poderás dizer nada. Guarda tudo para ti porque essa gente não tem, ainda, capacidade para assimilar tudo isso.
         - Ó, meu Obatalá! Tenho medo... E Zé Pedro?
         - Sim, nem a Zé Pedro. Ele será feliz, pois saberá respeitar o seu grande e imortal amor.
         - E Japuacy?
         - Japuacy? Veja, João...
         Pai João deu uma grande risada.



CAPÍTULO V

         Salve Deus! Explica-se a diferença entre a Velha Estrada e o Novo Caminho. A Velha Estrada é cheia de medo, de temor a Deus. A Velha Estrada foi palmilhada por milhares de pessoas, milhares de teorias sempre escritas e nunca praticadas. O Novo Caminho, entretanto, foi traçado pelo suor, pela própria energia de quem o traçou e vive a emitir com tanto amor.
         Vamos sentir o Caminho do Amanhecer, sem superstições nem teorias dos pensadores, e sim pela vivência, na prática, na execução desta Doutrina e de seus fenômenos sensoriais. Vamos senti-lo no respeito à dor alheia, no carinho aos humildes, no afeto das ninfas, no progresso e na compreensão de nossa família. ESTE É O CAMINHO TRAÇADO PARA O HOMEM NA DOUTRINA DO AMANHECER!
         Quem diria que, naquela era distante, os Enoques levassem tão alto esta filosofia, esta Corrente? Sim, Pai João, o mais velho, era quem observava, com mais precisão, o desenrolar das vidas nos carmas. Suas preocupações aumentavam, enquanto Pai Zé Pedro filosofava, reclamando de vez em quando.
         Os dias iam passando normalmente, isto é, sempre com a presença de fenômenos que já se haviam tornado corriqueiros. Só Deus sabia como e onde chegariam! Havia dias alegres, outros menos alegres, porém a vida decorria sempre em harmonia. Até que as forças foram-se materializando e tudo começou a ser mais verdadeiro, mais preciso. Pai João se enebriava com todos aqueles fenômenos e estava sempre à espreita dos mínimos acontecimentos. Refugiava-se sob uma grande árvore e, ali, cochilando, ia recendo suas mensagens.
         Um dia, o arraial estava tranqüilo e Pai João cochilava. Teve a visão de um finíssimo fio magnético entrando em uma das cabanas, e logo o grito de alguém que fora atingido por ele. Era Iracema que, desesperada, rolava, gritando com grande dor na espinha, como se tivesse levado uma pancada. Era um fenômeno mediúnico, puramente espiritual. Pai João correu para a cabana e fez uma elevação. A dor cessou.
         Começou a pensar no que havia visto. Tinha certeza de que aquele fio magnético tivera sua origem na cabana onde estava o feitor. Chamou Pai Zé Pedro e contou-lhe o que ocorrera. Trocaram idéias sobre o fenômeno.
         Jurema, que vinha chegando, foi manifestada por um Caboclo, que se dirigiu aos dois:
         - Meus filhos, tomem cuidado. Este feitor é um instrumento feliz de evolução. O pobre infeliz ainda vive pelas mãos caridosas de Sinhá Sabina. O fenômeno foi visto por vosmicê, João, para que tome cuidado.
         - Como? – perguntou, surpreso, Pai João.
         - Ele vai entrando em transe, mergulhado em seu ódio, e sua alma vingativa pega quem ele mais ama ou odeia.
         - Salve Deus! E eu que pensava que somente os desencarnados atuavam...
         - Sim, – continuou o Caboclo – vocês ainda têm muito que aprender nesta jornada para desenvolvimento, até que passe todo o carma da escravidão.
         - O Homem será feliz quando tiver a libertação! – disse Pai Zé Pedro.
         - NÃO, O HOMEM JAMAIS SE LIBERTARÁ! – falou o Caboclo, e foi desincorporando.
         Todos ficaram perplexos. Jurema, decidida, entendeu que o feitor representava um perigo e correu à cabana dele, dizendo que ia matá-lo. Pai João correu e a deteve:
         - Jurema, a concepção da morte resulta de um entendimento completamente errado da vida porque, na verdade, ela jamais existiu. O espírito não morre. Por isso, se matar o feitor, ele ficará mais leve, mais sutil, e nos atentará mil vezes mais! Todos os que se perdem pelo pensamento e se enchem de ódio, ao desencarnar vão para o astral inferior e, evidentemente, procuram voltar, aumentando suas furiosas crises. Vamos, Jurema, tentar doutriná-lo, antes que morra nesse ódio e se torne invisível aos nossos olhos.
         Chegaram à choupana onde estava o feitor, deitado em uma cama de varas e capim. Sabina correu, sorrindo, ao encontro deles. Esbravejando e praguejando, o feitor começou a ser doutrinado por Pai João. Jurema observava a cena, com seus lindos olhos verdes e amendoados.
         - Pobre Imperador! – dizia Pai João, em transe – Viestes com tão nobre missão e, no entanto, eis o que resta de ti! Pensa, Eufrásio, no que estou te dizendo. Vou levar Jurema, e voltarei.
         O dia já estava terminando quando Pai Zé Pedro e Pai João se encontraram para comentar os acontecimentos. Pai Zé Pedro, deslumbrado, ficava repetindo:
         - A irradiação dos encarnados pode se desprender dos corpos e se manifestar com a mesma leveza do espírito dos mortos!...
         Foram surpreendidos por um grito, e já pensaram em novo fenômeno que pudesse estar ocorrendo. Mas, logo, gargalhadas os acalmaram. Havia sido Pai Zacarias, que caíra na cachoeira e estava todo molhado. Coisas assim aconteciam sempre, mas, por causa da tensão que fora relaxada, foi motivo de brincadeiras e de alegria.
De repente, uma agitação. Um cavaleiro entrou pelo povoado, a galope. Era o feitor da fazenda onde Jurema havia vivido. Dirigiu-se a um grupo de crioulas que, assustadas, gritaram e correram. Vislumbrou Juremá e, num arranco, pegou-a pela cintura, colocando-a na montaria.
Tomás, vendo o que ocorrera, lançou-se à frente do cavalo, tentando detê-lo. Gritou para o feitor:
- Larga a menina, porco imundo. Aqui é diferente!...
- Nem tente me parar, porque vai morrer! – gritou o cavaleiro esporeando o animal e fazendo com que empinasse à frente de Tomás.
O cavalo atingiu, com suas patas, o estômago de Tomás, e saiu galopando para fora do povoado. Quando Pai João e Pai Zé Pedro correram para acudir, Tomás já estava morto. Foi um grande reboliço. Todos corriam e gritavam, no desespero do desastre. A surpresa fora tão grande que, com o impacto da morte de Tomás nem sequer pensaram em perseguir o raptor de Juremá. A tristeza se abateu sobre o povoado. A sintonia dos Nagôs se modificou. Já não cantavam, as risadas eram raras. Só a harmonia continuava.
Começaram a estudar um plano para recuperar Juremá. Pai Zé Pedro andava sem inspiração, muito triste por ter acontecido aquilo com Tomás, que fora praticamente criado por ele. Joaquim e Cassiano, dois Nagôs que muito amavam Pai Zé Pedro, decidiram partir em busca de Juremá. Nada disseram a ninguém e, silenciosamente, prepararam uma matula na mochila e partiram. Jurema os viu, em sua vidência, e Pai João sentiu, também, o que se passava. Mas ficaram calados.
Passou-se algum tempo. Jurema evitava Pai Zé Pedro e Pai João, pois tinha muita revolta pelo acontecido e estava com espírito de vingança pela morte do querido Tomás e pelo rapto da irmã. E os dois crioulos voltaram, trazendo Juremá. Novamente houve alegria no povoado. Correram para receber a jovem, mas uma desagradável surpresa os aguardava: Juremá não falava, perdera a voz!
A noite chegava e, reunidos em torno da fogueira, os Nagôs estavam entregues a seus próprios pensamentos. Ninguém falava, embora estivessem curiosos em saber o que se passara. Somente o crepitar do fogo e o murmúrio das águas na cachoeira eram ouvidos.
Subitamente, Jurema deu uma risada. Janaína se aproximou dela e se abraçaram. Com uma atitude que não era própria dela, Jurema saudou:
- Salve Deus! – e chamando Joaquim e Cassiano, disse-lhes energicamente: - Por que fizeram isso? Mataram o feitor e seu sinhorzinho! Isso não é ação de um filho de Deus que está a caminho... Terão que voltar à Terra. Tu, Joaquim, receberás o feitor como filho. E tu, Cassiano, terás o sinhorzinho também como filho!
Cassiano e Joaquim, que nada haviam contado, sentiram que Jurema sabia de toda a verdade.
- Me perdoe, bom espírito! – disse Joaquim – Porém, aquele malvado matou nosso Tomás covardemente.
- Senti que erramos, mas era tarde... – falou Cassiano – Ó, bom espírito! Será que não poderemos mais viver aqui, com nossa gente, por causa de nosso erro?
- Sim, podem ficar. Deus não tem pressa, Cada um, aqui, assumirá a sua sentença ou a sua libertação. – disse o espírito por Jurema, e desincorporou.
Juremá, enquanto Jurema estivera incorporada, tomava grande cuidado com ela. Viu, aliviada, sua irmã voltar ao normal. Cada um dos Nagôs ficou entregue a suas próprias reflexões sobre o que haviam presenciado. Alguns ficaram ao redor do fogo, outros foram para suas cabanas. Parecia que a calma voltava a reinar, quando gritos de Iracema assustaram todos. Estava sendo atingida novamente pelo fio magnético do feitor. Pai João correu e fez a elevação. Sentiu, porém, maior dificuldade em libertá-la daquela força maligna.
Os dias foram passando, e Iracema ficava, a cada dia, mais pálida e fraca, com ar doentio, preocupando todos. Pai João resolveu convocar uma sessão especial para ajudar a jovem crioula. Dela participou Vovó Cambina da Bahia, que fora chamada para tirar quebrantos dos filhos da Sinhá, e os acompanhara naquela jornada. Vovó Cambina rezou Iracema que, após o passe magnético, começou a apresentar melhoras. A partir disso, Iracema, à medida em que se ia fortalecendo, ia adquirindo forças para repelir o magnético do feitor.
Com o passar do tempo, o povo já esquecera a tragédia de Tomás e passara a se preocupar com a ameaça da força do feitor. Urgia fazê-lo amigo antes que os atingisse, Pai João explicara que, se conseguissem doutrinar o feitor, ele cessaria seus ataques com o fio magnético. E a dedicação foi tão grande que, após receber muitas visitas e expressões de simpatia, o feitor foi melhorando e chegou, mesmo, a pedir perdão aos negros que haviam sofrido seus castigos. Eufrásio já se abria mais, contando até como chegara a ser feitor naquela fazenda. Havia sido um grande senhor, com muito dinheiro e propriedades, mas perdera tudo no jogo. Pobre, abandonado pela família, só lhe restara aceitar a odiosa ocupação de feitor.
Mais uma vez, a prova de que o Homem só se liberta por si mesmo!
E assim, enquanto recebia a Doutrina de Pai João e de Pai Zé Pedro, Eufrásio ensinava o que sabia dos lugares por onde andara. Vovó Cambina da Bahia rezava o feitor todos os dias. Com a ameaça afastada, a vida no arraial começou a se tornar alegre. Cantos, risos, a animação voltou a se manifestar, principalmente ao redor da fogueira.
Às vezes, algum sobressalto, como no dia em que ouviram um grande alvoroço na mata, como se fosse um estouro de boiada. Era uma vara de porcos selvagens, e os Nagôs, com suas espingardas, conseguiram uma boa provisão de carne e impediram que causassem danos ao arraial.
Pai Juvêncio e Zefa eram os únicos que tinham coragem de se aventurar até um lugarejo próximo, chamado Abóbora. Certo dia, quando chegavam na entrada desse povoado, depararam com uma mulher que levava, nos braços, uma meninazinha meio desacordada. A mulher, desesperada, não sabia o que fazer. Então, Pai Juvêncio cochichou no ouvido de Zefa, que concordou com ele: era um caso puramente espiritual, o da menina.
- Calma, senhora! – falou brandamente Pai Juvêncio – Se quiser, podemos ajudá-la. Temos prática desses casos.
A mulher concordou, e os dois Nagôs benzeram a menina, que logo saiu daquele estado de inconsciência e ficou normal. Estava livre da influência espiritual que a perturbava. Tânia, a mãe da menina, feliz e agradecida, deu algumas frutas a eles, pedindo desculpas por nada mais ter para lhes oferecer. Pai Juvêncio e Zefa aceitaram as frutas e as comeram. Foram tratar dos assuntos que os haviam levado ao povoado e, depois, voltaram ao arraial.
         Ao chegarem na Cachoeira, nem sequer haviam posto o pé em casa quando foram acometidos por violentas dores em suas barrigas. A dor era tão intensa que resolveram pedir ajuda a Vovó Cambina da Bahia. Mas de nada valeu. O dia acabou e os dois pensavam que iam morrer. A dor estava forte e a desinteria parecia que não ia parar. Estariam envenenados?
         - Pobrezinhos! – dizia Pai João – Resolveram tantas coisas para nós nessa viagem. Deve ser alguma provação, deve ser Deus testando seus corações...
         Ao redor da fogueira, todos queriam saber notícias. Pai Juvêncio e Zefa estavam também ali, procurando conforto junto à sua gente. Foi quando Jurema, incorporando, levantou-se bruscamente do lado de Pai Zé Pedro e disse, apontando para os dois:
         - Eles comeram prenda ganha pela sua caridade! Por isso, estão sofrendo.
         - Como? – exclamou Pai João, surpreso.
         - Pena Branca não quer que se ganhe alguma coisa em troca do bem que se faz. Como Vô Agripino já ensinou, a gente só aprende com o espinho fincado na carne. É, Pai João, cada um de nós tem um espinho na carne...
         - Ó, meu Deus! – exclamaram todos – Sim, estamos conscientes disso.
         Vovó Cambina chegou com uma cuia de chá para os dois doentes e, só então, eles contaram à sua gente o que se havia passado com a menina quando chegaram a Abóbora. Esclarecida a causa do mal, todos se abraçaram com os dois e entoaram um coro, troçando deles:
         - Juvêncio e Zefa comeram prenda da caridade que fizeram. Sim, receberam pagamento e Pena Branca não admite presentes ou que se cobre pelo bem que é feito...
         Zefa e Juvêncio ainda passaram três dias com dores.
         Eufrásio, o feitor, que se tornara como que um conselheiro do grupo, achou o acontecimento muito proveitoso. Primeiro, pela lição de Pena Branca e, segundo, pela precisão da vidência de Jurema. O pobre casal fora lesado pelas suas mentes preguiçosas.
         O tempo passava, e a inquietação começou a tomar conta do grupo.
         - O que será de nós? – perguntava Pai Zé Pedro – Para onde iremos? Não seria melhor sairmos e enfrentar o mundo, em lugar de esperar que o mundo se chegue até nós?
         - Zé Pedro, – dizia Pai João – quando o celeiro está pronto, o Mestre aparece. São palavras de Vô Agripino.
         Pai Zé Pedro, Pai Lourenço, Pai Francisco e muitos outros dos setenta membros daquele grupo estavam inquietos. Somente Pai João e Eufrásio, firmes na revelação de Vô Agripino, permaneciam calmos. Já faziam dois anos que haviam chegado à Cachoeira do Jaguar. Estava tudo preparado no plano espiritual.
         Certa manhã, Jurema, incorporada, avisou a Pai João que muita gente chegaria, buscando a cura. Os Nagôs começaram os preparativos para recebê-los. Um dia, o aviso soou:
         - Lá vêm eles! Lá vêm eles!...
         E viram um grande grupo que chegava pela estrada. Todos correram para receber os visitantes. Havia grande expectativa. Zefa e Juvêncio reconheceram, entre eles, a mulher com a menina que haviam atendido na entrada de Abóbora. Zefa gritou:
- Jurema! Pai João! Pai Zé Pedro! É gente que vem em busca da caridade! – e perguntou baixinho a Pai João: - Não tem perigo da gente ter dor de barriga?
         - Não. – respondeu, sorrindo, Pai João – Todos aprenderam a lição!
         As pessoas chegavam e eram atendidas com muita alegria e amor. Todos estavam felizes. A felicidade dos missionários de Deus! E foram acontecendo os fenômenos, as curas desobsessivas, e tudo transcorreu na mais perfeita ordem, com muito amor e humildade.

CAPÍTULO VI

         Salve Deus! As trevas da noite nada significam para o espírito, pois este vê através do seu resplendor. Sim, meu filho, declaro, com toda confiança, que não está longe o dia em que a Ciência irá se colocar diante desta realidade que é a reencarnação. Ninguém poderá impedir o progresso. O mundo de hoje está brincando com fogo. O tempo, no espaço, não se registra. Não se sabe, porém, os caminhos físicos. No centro nervoso da Terra, tudo é lento, tudo vibra para formar a harmonia no centro eterno do Homem. Seus rápidos contatos com o etereomagnético é o bem que lhes dá força. O Homem, mesmo na sua inconsciência, confirma o seu penhor no eterno e junto aos seus velhos sábio retorna ao seu Sol Interior.
         Sim, meu filho, breve irão chegar os dias em que o Homem espiritualizado será sentido pelo profano como uma música literária da mais alta sinfonia.
         Sim, meu filho, segundo as leis e forças que governam todas as coisas que Deus criou, o Homem, na totalidade, sempre procura empregar sua força mais para impedir o desenvolvimento da Terra. Vê-se, assim, que vive como a se punir pelas suas próprias leis. Leis sempre para punir outros. Não sabem se desviar, e continuam a punir.
         Sim, meu filho, não é fácil abandonar a multidão. Fixar-se em si para buscar a verdade é mais difícil, ainda, do que permanecer com ela, permanecer com a verdade quando a encontramos.
         Sim, meu filho, com este espírito de lealdade, vamos encontrar o nosso povo na Cachoeira do Jaguar.
         Foi tudo bem naquele primeiro dia de atendimento ao povo que chegara. Curas, muitas curas, que se espalharam por toda a parte. Luzes, de longe, se viam naquela Cachoeira. Os trabalhos continuaram noite a dentro, e já estavam todos cansados, naquela vida arrastada pelos compromissos cármicos.
         Pai João amanheceu doente. Seis horas da manhã e o céu não havia clareado ainda, fazendo os pensamentos se encontrarem. Eufrásio entoava um “bendito” da Igreja católica. Jurema juntou a roupa e desceu, com uma enorme trouxa, para a fonte. Junto com ela foram Janaína, Jandaia e Jandara. Alguns Nagôs já retornavam das caçadas enquanto outros se dirigiam para as roças. As sinhás preparavam uma feijoada e outras crioulas reativavam o fogo da célebre fogueira.
         Pai João sentia a tristeza daquela gente e, em sua mente, começou a voltar. Pai Zé Pedro chegou, fazendo algumas premonições. Previa também alguma dor devida ao procedimento daquela gente em ações pretéritas.
         Haviam sentido que uma certa desarmonia começava a crescer entre os Nagôs! Era uma coisa recente, e Vô Agripino comunicara que ela era produzida pelas vibrações dos familiares de Janaína e que eles acabariam por descobrir seu paradeiro. Evidentemente, haveria uma batalha. Perder Janaína seria um terrível descontrole para Jurema.
         Suas confabulações foram cortadas inesperadamente. Da entrada da aldeia, três cavaleiros desconhecidos gritaram:
 - Negros! Viemos em paz! Só queremos que nos entreguem sinhazinha Janaína, que sabemos estar aqui. O pai dela pediu a cabeça de todos vocês, que roubaram a sinhazinha sua filha. Só queremos levá-la e não haverá vingança.
         - Ela não se encontra aqui! – gritou Jurema, aflita.
         Janaína, que procurava se esconder, deu uma corrida e entrou na choupana de Eufrásio, apavorada. Mas, foi vista pelos cavaleiros, que correram em sua perseguição.
         Eufrásio, que acompanhava a cena, pegou o clavinote que trazia sempre à mão, para o caso de aparecer alguma onça ou lobo, e atirou nos atacantes. Atingiu, primeiro, o que já estava pegando Janaína e, logo depois, o mais próximo. O terceiro cavaleiro, correndo amedrontado, enveredou pela mata, fugindo.
         Pai João mandou que desarreassem os cavalos e os juntassem na tropa. Correu para a choupana de Eufrásio, que fizera um esforço excessivo para suas precárias condições físicas. Todos acorreram para a cabana, onde Eufrásio, desesperado, falava a Pai João e a Pai Zé Pedro:
         - Ó, Pai João! Jamais pude pensar em tão criminoso gesto. Sim, Pai Zé Pedro, eu não podia deixar que aqueles miseráveis pusessem as mãos nessa criaturinha!...
         Um dos atacantes estava morto. O outro, muito ferido, urrava de dor. Ficaram sem saber como agir, mas resolveram cuidar do ferido. Prevaleceu a lei do amor!
         Enquanto tinham sua atenção voltada para o ferido, deixaram Eufrásio sozinho. Então, os gritos do feitor fizeram todos correr de volta à cabana dele. Surpreenderam-se com Eufrásio sentado na cama, gritando e chorando de alegria, que disse:
         - Veja, Pai João, Deus se compadeceu de mim! Veja! Estou me movimentando... Ó, meu Pai Zé Pedro! Graças a Deus, parece que vou ficar curado!
         A emoção invadiu todos os corações. Com as mãos apoiadas em Pai João e em Pai Zé Pedro, Eufrásio levantou-se e começou a ensaiar um passo. As lágrimas brotaram nos olhos de todos. Exclamavam:
         - Ó, meu Deus! Eufrásio vai andar... Eufrásio vai andar...
         Gritos de emoção, abraços. Foi uma explosão de alegria ver o feitor dar alguns passos.
         Mas, havia o homem ferido, que precisava de atenção. Maria Conga e Vovó Sabina foram cuidar dele. Alguns Nagôs foram enterrar o morto enquanto outros ajudaram a transportar o ferido para uma choupana. O ferido, que pensava que ia ser morto, emocionou-se com toda aquela ajuda. Falou que se chamava Amâncio. O que morrera era Creso. Estavam agindo por conta própria, e ninguém os havia mandado ali. Sabiam da existência de Janaína e armaram o plano para pegá-la e levá-la de volta para casa, cobrando uma boa soma do pai dela. Eram os velhos reajustes naquela noite fatal na senzala.
         Pai Zé Pedro estava em conflito e chegou-se a Pai João:
         - Como pode? Eufrásio matou e ficou curado! Como pode, João, um fenômeno desses?
         - Cala-te, Zé Pedro. Deixe de fazer julgamento. Esses três homens não são nem eram mandados pelo pai de Janaína. Estavam, sim, com más intenções na pobrezinha dessa virgem. Olha, Zé Pedro, já estamos aqui há mais de cinco anos. Não está lembrado que o sinhorzinho Erics vendeu tudo o que tinha e foi embora, pensando que sua filha havia morrido afogada? Surgiu até a lenda que a nossa Janaína parecia cantando, por cima das águas, nas noites de Lua cheia. De um ano para cá, com o movimento de pessoas que vieram aqui, alguém começou a desconfiar que a menina estava conosco. Confiança, Zé Pedro, nas coisas de Deus. Estamos em um maremoto, porém para um nada. É confuso tudo isso...
         - Ó, João! Graças a Deus! Não sabes o bem que me fizeste.
         Pai João mandou um recado para o antigo sinhorzinho, que se encarregou de arrumar a situação, legalizando, inclusive, toda a papelada junto ao pequeno arraial de Abóbora.
         Eufrásio ficou realmente curado. Mas aquela força que possuía antes, que o impelira para uma caminhada firme, parecia ter-se acabado. Impaciente, com freqüente mau-humor, já não queria ficar no povoado. Falava em procurar a família, em partir. E, o que era pior, estava apaixonado por Iracema! Em tudo colocava amargura. Era outro homem.
         Numa noite, Pai João e Pai Zé Pedro se afastaram um pouco, para meditar sobre os acontecimentos. A Lua cheia dava aquela tranqüilidade luminosa e a fogueira estava reduzida a um imenso braseiro.
         - É possível, João, alguém regredir tão depressa? – perguntou Pai Zé Pedro referindo-se a Eufrásio.
         - Sim, Zé Pedro. Naquele acontecimento trágico, muita experiência Deus nos deu, à luz do saber. Pelo que sei pelos meus contatos com Vô Agripino, Eufrásio é somente um instrumento de nossa evolução. E me disse mais: que eu nunca me iludisse com seu comportamento e nem tampouco com a sua evolução. Realmente, tudo é bem compreensível, pois o Homem não se evolui em tão pouco tempo.
         - Ó, meu Deus! Começo a compreender o que estamos passando...
         Foram interrompidos pela chegada de Eufrásio, que falou:
         - Pai João, vou-me embora. Não estou mais suportando esta vida! Vou sair, procurar emprego onde chegar. Darei notícias. Jamais irei me esquecer de todos aqui, e muito menos de vocês dois.
         - E quando pensa em partir? – perguntou, espantado, Pai Zé Pedro.
         - Agora mesmo, e sem muitas despedidas.
         Foram até onde estava o animal do homem que fora morto. Eufrásio, sem nada mais dizer, montou e foi embora, ficando Pai João, Pai Zé Pedro e alguns Nagôs olhando, perplexos, seu vulto, iluminado pelo luar, cavalgando para longe.
         Foram para junto da fogueira. Sentaram-se, pensativos. Jurema, virando-se para Pai Zé Pedro, disse:
- Tenho pena de vosmicê – e foi incorporando: - Salve Deus! (era Vô Agripino) Meus filhos, Eufrásio foi embora, Cumpriu seu tempo com vocês. Mas não se preocupem, porque não irá muito longe. Fez grandes dívidas nesses arredores. Já pagou sua dívida para com Janaína, mas vai reencontrar sua família ali em Abóbora.
         - Em Abóbora? – perguntou Pai João – Eles aí, tão pertinho...
         - Sim! Porém, ele partiu sem saber. E vocês devem estar preparados porque também terão que partir daqui.
         - Como? Ir embora daqui, da nossa Cachoeira?
         - Sim. Vocês irão para bem longe. Jurema, Janaína, Iracema, Juremá, Janara, Iramar, Jazaíra e Jaiza precisam se casar. Esta aldeia não tem mais energia para vocês. Logo chegará a ordem para partirem!...
         Vô Agripino desincorporou e a tristeza se abateu sobre o grupo. Sim, era preciso obter a energia transcendental, herança que se encaminha na Lei do Auxílio.
         Na época, viviam ali no povoado 108 personagens. Era uma família, e a saída de Eufrásio servira para uni-la mais. E unidos aguardavam o destino que Deus lhes daria,
         A princípio tristes com a saída de Eufrásio, estavam reunidos, calados, em volta da fogueira. Pai João preocupado, com o coração doído, falou:
         - Meus filhos! O Homem não vive com o coração dilacerado pela desilusão. Não fiquem assim compungidos pela saída de Eufrásio.
         - Eufrásio era tão bom, nos dava tantos conselhos... – replicaram alguns – Ele era um homem muito bom.
         Pai João começou a pensar que, quando o Homem se esquece das faltas do outro, é porque está evoluindo. Naquele caso, todos só se lembravam de Eufrásio em sua boa fase. Nem se preocupavam com Iracema, a crioulinha indefesa, que ele muito fez sofrer.
         - Zé Pedro, – disse Pai João – estes são, realmente, os velhos reis e imperadores!
         - Por que, João, afirmas isso com tanta euforia?
         - Porque, Zé Pedro, o Homem que viveu em encarnação superior, isto é, de procedência refinada, não perde a confiança em si mesmo. Sempre preocupado com o espírito de Justiça, não se envolve com mesquinharias. Somos 108, sabe? Todos reis e rainhas. E ainda vamos conviver juntos por muito tempo!
         - Deveras? Eles só se lembram de Eufrásio em suas boas ações e de seu martírio na cama.
         Jurema começou a fazer previsões. Apontou para Iracema e disse:
         - Iracema, você voltará para ser esposa de Petrucio. Sim, seguirá para muito longe. Iracema e Iramar atravessarão o espaço para receber a missão e, depois, voltarão como esposas do mesmo imperador.
         - Eu? – exclamou Iracema, assustada – Esposa de imperador?
         - Sim, – continuou Jurema – cujo imperador será Eufrásio que, neste instante, já se prepara para partir, rumo à sua missão.
         O silêncio ficou pesado. Pai João perguntou:
         - Como irão casar as duas com o mesmo homem?
         - Sim. Uma morrerá e Iramar se casará por último. Depois, todos nós partiremos de lá e iremos para outro lugar, aqui perto.
         Foi uma noite inquieta, de frustrações e sonhos pesados.
         Continuaram a viver, acostumando-se coma ausência de Eufrásio. Reinava, então, um suspense. Sempre haviam sustos, reparações doutrinárias, uma harmonia quase de medo. Certo dia, Pai João se acercou da fogueira e começou a falar:
         - Vejam, meus filhos, como a Lei segura o Homem. Vê-se, assim, como o Homem pode ser punido pelas próprias leis que estabelece, sem se desviar delas. São as leis feitas pelos Homens, que punem. Os poderes superiores podem proteger o Homem das forças negativas, que causam doenças e sofrimentos. Porém, o pedido de proteção, segurança contida de paz, harmonia do nosso todo, isto é somente na LEI DO AUXÍLIO. Fazendo a caridade é que abatemos na lei do nosso carma. O sofrimento de hoje é a luz do amanhã. Individualizamos a vida e, no entanto, somos guiados por Deus. Há muitos séculos, o Homem tentou criar e fez a força cega em si mesmo, dirigida pelo chefe das almas.
         Pai Zé Pedro ouvia, atento, remoendo, em seu canto, a falta e a transformação de Eufrásio. Perguntou:
         - João, o que é Deus? Não é dado ao Homem conhecer Deus, que, por si mesmo, deve compreender? Sabemos que um Homem está com Deus pelo seu procedimento. Por que regride o Homem? Eufrásio estava em Deus. Como pôde cair tão repentinamente?
         - Sim, Zé Pedro, cuidado com a tua força de pensar. Você é um nego velho para o chicote mas não para julgar com tanta convicção!
         Os dois começaram a rir, e João disse, com amor:
         - Sim, Zé Pedro. Ouça bem o que diz Vô Agripino: Deus é absolutamente fé, é absolutamente razão. E ser a razão é a Ciência. A Ciência é a razão. Eufrásio não estava com Deus. Deus tentava penetrar apenas em seu coração, como tocou no nosso, naquela noite.
         - Como? – falou Pai Zé Pedro – Eufrásio assumindo com ele mesmo os seus desatinos. Tudo perdido!...
         - Não, Zé Pedro, nada se perdeu. Pelo contrário, Eufrásio saiu para cumprir seu destino. Deus não lhe daria o perdão de suas faltas por aquele curto tempo em que esteve paralítico aqui na cabana. Espancou muitos homens. Foi o causador da noite trágica. Quantas mortes em seu nome? Tudo o que aconteceu foi a bem do seu espírito. Não se esqueça do que disse o Caboclo Pena Branca: breve, muito breve, iremos nos encontrar. Salve Deus!
         - É, João, na verdade um Homem não tem capacidade para julgar outro!
         Os dois começaram a sorrir, achando graça do que haviam falado e que tanto bem lhes fizera. Tudo vinha de Vô Agripino para Pai João.
         Estavam felizes agora. Recordavam suas vidas passadas e o porquê daquela escravidão. A felicidade, porém, durou pouco. Como que por encanto, um temporal – quase um furacão – se abateu sobre a aldeia. O mar crescia, rugindo suas águas, e as árvores vergavam, com suas copas quase arrastando no chão. Apavorados, os Nagôs se juntaram a Pai João e a Pai Zé Pedro, suplicando a misericórdia aos Céus. As palavras de Vô Agripino eram, agora, o lema daquele povo: coragem, firmeza, fé e amor – só Deus!
         Todos juntos, esperando. E foi quando a voz do Índio Estrangeiro, como uma melodia de paz, se fez ouvir:
         COMO SE TUDO PARASSE, É A HORA DE POMPÉIA, E DE TODOS, EM DEUS PAI TODO PODEROSO!
         Foi a Voz Direta! Todos ouviram e viram aqueles olhos verdes, incomparáveis, iluminando aquela escuridão.
         Sim, estariam juntos, mas, ó, meu Deus, em que plano, em que dimensão?

= FIM =